Eu de um lado, tu do outro… 

9 Eu de um lado Tu do outro

O pessoal estava simplesmente barulhento! Todos se abraçavam, riam, se cumprimentavam, conversavam…! A julgar pela fisionomia sorridente de praticamente todos os presentes, o momento era só alegria! Mas, como quase tudo na vida, nem sempre as coisas são exatamente o que aparentam ser. Por dentro, no mais íntimo dos corações, havia muita coisa não resolvida e que não correspondia, absolutamente, com aquela aparente felicidade.

 

O grupo era composto de pouco mais de vinte pessoas, na maioria jovens adultos; ou seja, alguém que já passou dos trinta e que ainda não se casou. Éder odiava essa etiqueta, mas, agradecia pelo fato de a etiqueta ainda incluir a palavra “jovem”. O fato de a pessoa já ter certa idade, e ainda não ter se acertado com o seu par, isso acaba se tornando um verdadeiro estigma… E como isso dói! Éder era bancário, tinha seu próprio apartamento, um bom carro e já se considerava estabilizado na vida; mas, nada disso parecia fazer qualquer sentido, se ele não tinha alguém com quem compartilhar suas vitórias, seus momentos de dificuldades, ou, até mesmo, o fruto do seu trabalho.

 

As pessoas reagem de formas diferentes, quando expostas à mesma experiência. Algumas até conseguem rir e se divertir, enquanto que outras, não conseguem sequer esconder o gosto amargo da própria insatisfação e infelicidade. Assim como Éder, havia, naquele grupo, outras pessoas que também partilhavam desse mesmo sentimento. Melissa, uma bem sucedida lojista de roupas femininas, era muito introvertida e também não conseguia se sentir muito à vontade em meio a tanto barulho e movimento; por isso, sempre que possível, ela procurava se afastar do tumulto e aparentar alguma tranquilidade – para não destoar tanto dos demais. Ela não via lá muita graça em festas de aniversários e muito menos em Réveillons; mas, convidada por uma amiga, ela não pode senão concordar em dar uma passadinha. Essas festas, para ela, eram sempre uma terrível lembrança de que “mais um ano!” havia se passado. Mas ela estava fazendo o possível para disfarçar esse sentimento e, às vezes, até entrava no cordão do “oba, oba!” para contentar os eufóricos amigos.

 

Como faltava ainda um tempo para a badalada da meia-noite – o Ano Novo, alguém teve a idéia de agitar “ainda mais!” a reunião e propôs que cada recitasse um poema, uma estrofe, ou, que fosse um verso, de algum poema que soubesse. Para alguns isso foi moleza e houve quem declamasse poemas inteiros, como!

 

“O coração está sendo julgado:

A Consciência é juiz, assiste o Amor,

E, sendo o Ódio elevado a promotor,

A Constância defende o réu culpado.

— Condenai-o, juiz, por ter roubado um beijo! (eis que assevera o acusador)

A constância repele:

— Ouvi, senhor; dar um beijo a quem se ama, é pecado?

Um silêncio se faz na sala imensa…

E o juiz, muito calmo e sabiamente,

Olha para o réu e profere a sentença:

— Pelo crime de amor, que praticou, eu condeno este réu, tão inclemente, a devolver o beijo que roubou!” __ de Zé Alves

 

Mas, a maioria declamou apenas uma estrofe, como:

“Diferente da paixão,

O amor é um sentimento;

Está acima da razão, e,

Do passar do tempo.” __ de Roberto Carlos

Já alguns, com grande dificuldade, procuraram recitar ao menos um verso…

“Lutar pelo amor, é bom; mas, alcançá-lo sem ter que lutar, é melhor!”

__ de Shakespeare

“Todas as paixões nos levam a cometer erros; mas, o amor, nos faz cometer os mais ridículos!” __ de François La Rochefoucould

Claro, também não faltou quem recitasse a manjadíssima trovinha:

“Batatinha quando nasce,

Esparrama pelo chão;

Nenezinho quando dorme,

Põe a mão no coração!” __ de autor desconhecido

Ao que Rubião, que era sempre do contrário, emendou logo em seguida:

“Bata-nasce quando tinha,

Espa-chama pelo rão;

Nene-dorme quando zinho,

Põe a ção no cora-mão!” _ invenção do próprio Rubião

Melissa, que conseguiu ir se esquivando até ao fim, chegou uma hora em que não deu mais – só faltava ela!

— Hã… (diz ela muito sem jeito) A única coisa de que consigo me lembrar é uma estrofe de um poeminha que li na minha infância e que é mais ou menos assim:

“Eu de um lado, tu do outro…

O rio fica no meio.

Tu, de lá, dá um suspiro…

Eu, de cá, um suspiro e meio!” __ de autor desconhecido

Alguns fizeram galhofa, outros acharam “fofinho!” mas, o que importava mesmo, pelo menos para Melissa, é que a turma deu a tarefa por concluída e ela pode se ver livre da pressão de todos os olhos fitos nela. E, aproveitando a deixa, ela foi se esgueirando e saiu para a varanda, onde havia um banco de madeira e uma bela vista para o jardim, por sinal, muito lindo, bem cuidado e iluminado! Ela mal acaba de se assentar e chega Éder, que se assenta ao lado dela. Como ela sabia que Éder era do tipo que falava pouco e ainda muito compassado, Melissa resolve iniciar a conversa:

— Você também está fugindo ao movimento lá de dentro. (disse, quase que interrogando)

— Hum… É… também. (diz Éder, com a calma que lhe era peculiar) Mas, eu vim mesmo foi pra te dizer que eu não gostei do teu poema. (pausa longa)

— Bem, o poema não é meu; na verdade isso é apenas o que eu consegui me lembrar dele. (diz Melissa tentando se desculpar)

— É, você já disse. (pausa) Melissa, você acredita que a gente possa corrigir, ou, modificar, alguma coisa com a qual a gente não concorde muito?

— Sim, claro que sim! (diz Melissa sem saber exatamente aonde o rapaz queria chegar)

— Então… (mais uma pausa) Eu gostaria de propor uma mudança no teu poema. E se a gente, eu quero dizer, eu e você, o declamássemos assim:

“Eu de um lado, tu do outro…

O amor fica no meio;

Tu, de lá, me dá um beijo,

Eu, de cá, um beijo e meio!” _ eu e você

Que tal; hã? (diz Éder, já colocando o braço sobre os ombros de Melissa…)

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