De volta ao futuro…

10 De Volta ao Futuro

Zinho, cujo nome mesmo era Manoel, estava já quase concluindo o seu curso de jornalismo, trabalhava como redator no jornal O Metropolitano e era fascinado por dois assuntos em especial: Tempo, e, viagem através do tempo. Sempre que possível ele puxava esses assuntos com as pessoas à sua volta e, como era muito rápido na escrita, ele ia anotando tudo; tanto as informações interessantes, como também as anedotas, gracejos e até as chacotas e desdém de cada um dos seus interlocutores! Ele pretendia escrever um livro sobre o assunto algum dia, mas não um livro com informações forçadas, para serem engolidas simplesmente; ele queria levar em conta todos os seus possíveis leitores e seus mais diferentes pontos de vista.

Era domingo à tarde e ele estava assentado num banco da praçinha em frente à matriz enquanto esperava por Soraia, uma garota com quem marcara de ir ao cinema aquela tarde, quando chega Elizabete, uma professora de física com quem sempre trocava umas idéias e lhe pergunta:

— E aí, Zinho; se incomoda? (diz ela jogando o seu charme e fazendo menção de se sentar ao seu lado)

Zinho, que como de costume estava escrevendo alguma coisa num grosso e surrado caderno que sempre trazia consigo, levanta os olhos e assente que sim.

— Claro, Bete, tenha a bondade.

— Curioso… (diz ela olhando para frente, para não tirar a privacidade do rapaz em suas anotações) “Um escritor que escreve na praça!” (diz ela em tom de brincadeira) Isso até serviria de título a um livro…! A propósito, você se considera um escritor; certo?

— Bom… Isso depende muito do ponto de vista. (diz ele deixando de lado, por um instante, o que estava escrevendo) Em princípio, quem escreve é escritor – seja de romances, de contos ou de poesias, eu diria; muito embora, na prática, só é mesmo considerado escritor aquele que tem seus escritos publicados… e, lidos!

— Aha…! Muito bom! Gostei. E você, continua escrevendo sobre aquelas pitorescas “viagens pelo tempo”?

Bete, que curtia muito mais o rapaz do que a sua inteligência e os seus escritos, nunca perdia uma oportunidade para uma boa conversa ou discussão com ele sobre qualquer assunto.

— Bem, você sabe; como redator, no jornal, eu escrevo o que me mandam; mas, quando eu posso escrever o que me agrada, os meus assuntos prediletos são aqueles de sempre: O tempo, viagens e… contos de ficção, de um modo geral.

— Hum… Eu apreciaria muito se você me permitisse ler mais alguns dos contos que você tem escrito… Aposto que são todos muito interessantes! Agora, de onde você tira essas idéias tão mirabolantes para escrever sobre coisas que você nunca viu… e que não existem, na realidade?! Se não te for um incômodo, a tal pergunta, é claro!

— “Ora! Não é incômodo algum. (diz ele se ajeitando melhor no banco, de maneira a dar maior atenção à colega) Por exemplo; seja você uma cientista, filósofa, professora, ou o que for, você provavelmente já parou para pensar sobre o porquê do tempo, na sua natureza e sobre o seu implacável e ininterrupto avançar; não é assim? Na verdade, todos nós pensamos sobre isso; apenas que uns mais, outros menos; uns escrevem o que pensam, e outros não.

“Muito se tem escrito sobre o desejo de parar, retroceder, ou, de se adiantar no tempo. A “viagem através do tempo” tem sido uma universal e deliciosa fantasia da mente humana em sua busca pelo que já foi – no passado, pelo que está acontecendo – no presente, ou, pelo que ainda nos acontecerá – no futuro. Isso tem sido tema de muita reflexão e até de “muitos esforços!” ao longo de nossa existência.

“A volta ao passado, naturalmente, nos faz sonhar com as possibilidades de consertarmos o que foi mal feito, ou, de prevermos (lá no passado) o dia de hoje, de maneira a tirar um ótimo proveito da tal antevisão, da mesma forma que faríamos se pudéssemos sair do presente, dar uma passadela pelo futuro e depois retornar! Assim, diríamos que o assunto: “viagem através do tempo” sempre foi, é, e continuará sendo ainda um dos mais apetitosos assuntos à nossa vã imaginação; e, como todo mundo, eu também penso sobre isso e acabo imaginando certas situações… e, depois, é só parar e dedicar algum tempo escrevendo sobre essas fantásticas imaginações. A mim isso me parece bastante natural; a você não?”

— É… Eu acho que você tem razão. É um assunto de fato interessante e só o que muda é a quantidade de tempo que cada um de nós dedicamos a pensar sobre isso. (diz sorrindo) Outra coisa; é impressionante como tem surgido, ultimamente, (diz ela com ênfase) um bocado de romances e filmes de ficção do tipo que “transporta” o leitor ou o espectador para o passado, para o futuro ou simplesmente para um espaço/tempo curiosamente diferente da nossa realidade; não?

— Pois é; (emenda Zinho) mas, não obstante o latente e insistente desejo do ser humano de domar o tempo, ele está aí e continua marchando unidirecionalmente, em todo o universo, tal como o Criador, em sua sabedoria, o estabelecera.

— Pelo visto, você é um criacionista! (diz ela sorrindo) Eu também sou. Segundo a metafísica teoria da relatividade de velocidade/espaço/tempo, conforme proposta por Einstein, o tempo poderia andar mais rápido, ou mais lento ou até mesmo parar. O que você me diz sobre isso?

— Bom, pelo menos teoricamente, isso parece fazer sentido; mas, na prática, de que maneira o homem iria conseguir velocidades próximas, ou até mesmo superiores, à velocidade da luz?!

Shakespeare disse, certa vez: (diz ela) “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia!” De repente, o homem pode descobrir uma maneira de se transportar através de um facho luminoso e à velocidade da luz… Por que não!?

— “É… mas, aí teríamos que considerar uma desmaterialização, transporte da submatéria e uma subsequente transmaterialização… e eu não acredito nisso! Não obstante os formidáveis avanços tecnológicos da modernidade, o homem ainda não pode dizer que domina nem ao menos os rudimentos básicos dessa tal “ciência!”

“Para ser mais específico, o homem não domina nem mesmo os simples conceitos entre Passado, Presente e Futuro! Por exemplo; como podemos dizer que “existe” um tempo chamado “futuro”, se ele ainda não chegou? E quando chegar, quanto tempo durará como presente? O que é o “presente”, afinal? No exato momento em que paramos para definir o “agora” como sendo o nosso “presente”, esse “agora” já se foi e já entrou para a janela do passado, um espaço/tempo que foge totalmente ao nosso controle!

“A rigor, poderíamos dizer que o “futuro” não é nada mais do que uma simples expectativa do “presente” – em função de experiências no “passado”. O “presente”, por sua vez, seria apenas e tão somente uma transição “com duração infinitesimal!” entre o “passado” e o “futuro”. Na verdade, só o “passado” existe… em nossa memória e materializado em nossas realizações. E, curiosamente, a única coisa que podemos fazer, em se falando do nosso passado, é alterar coisas materiais que um dia foram trazidas à realidade! Porque, com relação às nossas ações imateriais, é como nos diz o velho adágio: “O que passou, passou!”

“O grande metafísico Einstein, que você muito bem conhece, disse uma coisa muito interessante: “A única razão para a existência do tempo, no universo em que vivemos, seria o cuidado do Criador para que não nos acontecesse tudo de uma só vez!” Ou seja; o tempo Presente tem duração infinitesimal para que possamos suportar a dor de nossas mediocridades enquanto o Passado é constantemente afastado de nós e varrido pela ininterrupta chegada do Futuro!”

— Hum… Pelo que vejo, (diz Elizabete com ar crítico) você gosta de escrever sobre uma tal “viagem através do tempo”, viagem esta na qual você absolutamente não acredita… Ou será que estou enganada?

— Não; você não está enganada. Eu de fato aprecio muito esse tema, mas apenas como ficção; não como uma possibilidade a ser explorada.

Nisso chega Soraia. Zinho se despede de Bete e vai, com Soraia, assistir ao antigo, mas ainda celebrado filme: De Volta ao Futuro.

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