A má sorte do gaudério…

11 A má sorte do gaudério

Já havia parado de chover; só uma garoa fina continuava a cair sobre as sombrinhas, chapéus coco e casacos de feltro já molhados pela insistência do mau tempo. As senhoras, elegantes, com suas roupagens multicoloridas e rendadas faziam um belo contraste com os homens, quase todos de preto e a maioria usando bengalas de madeira escura – algumas delas enfeitadas com madrepérolas. Como a temperatura havia caído um pouco e também já eram quase três da tarde – hora do meu chá com torradas, resolvi entrar num dos bares da movimentada avenida e ver que opções teria.

Na entrada, um verdadeiro aglomerado de gente, acabei tropeçando em algo e não fosse a pronta gentileza de um cavalheiro à minha frente, que me segurou com firmeza, e eu teria ido ao chão! Assim que recobrei o equilíbrio e me recompus eu procurei o cavalheiro para lhe agradecer, mas o mesmo já havia desaparecido por entre a pequena multidão; de maneira que fui direto ao balcão e pedi por um café sem açúcar, com um pouco de leite e um biscoito de manteiga. Estava ali distraído, folheando O Diário da cidade, quando dou conta de que o atendente do bar me perguntava alguma coisa:

— Deseja mais alguma coisa, senhor?

— Hã? A… Não, obrigado.

Achei curiosíssima a pronúncia e também a fina educação do atendente; há tempos que não apreciava algo assim; essas viagens através do tempo às vezes nos surpreendem! Tanto me entretí com o noticiário, com a sua estranha qualidade de impressão, remoto vernáculo e “arcaica ortografia!”, que nem vi o tempo passar.

O burburinho, a agitação e o adocicado cheiro de gente molhada no bar já havia cessado e só restavam alguns clientes que estavam jogando cartas, nas mesas mais ao fundo, e também dois senhores, muito bem vestidos, de uns sessenta anos de idade, que estavam jogando xadrez numa mesa encostada à parede lateral do bar. Aproximei-me bem de vagar e após apreciar, ao lado e em silêncio, a partida de xadrez, achei que as pretas estavam irremediavelmente perdidas e que não restava muito a fazer. Por isso abandonei o xadrez e decidi dar uma volta pela cidade e aproveitar, antes do final do dia, para comprar alguma novidade e também para decidir sobre onde passar aquela fria e chuvosa noite de inverno.

Subindo, do outro lado da avenida, havia uma loja cujo nome, numa placa estreita e vertical, era muito interessante: Máquinas do Tempo; e, é claro, eu fui direto para lá! Era uma loja bem ampla, linda e muito bem sortida! Tinha praticamente todos os tipos, marcas e qualidades…! Eu, que sempre fui, diríamos, “doente!” por máquinas do tempo, não pude resistir e comprei logo um lindo modelo de bolso e também um de parede – tipo cuco, que me deixou muito feliz!

Encontrado um bom hotel, fiz questão de ficar num quarto de frente para a rua para poder desfrutar de uma visão privilegiada da avenida cujos lampiões, nos lindos postes de ferro fundido, àquela hora ainda não havia sido acesos. Da sacada do quarto, apreciando as lindas carruagens, carroças, cavalos e ainda muitas pessoas na avenida, de repente me lembrei do “tropeção!?” na porta do bar e, num susto, corri a mão ao bolso do paletó e… Ai…! O larápio (ou, o gaudério – como chamam isso hoje, por aqui) me levou o smartphone! Ainda muito indignado, mas aliviado por não ter perdido coisa de maior valor, pensei comigo mesmo:

— Gaudério idiota! Esse smartphone, além de ser uma velharia, ainda não pega sinal algum por aqui; aliás, nem teria como recarregá-lo! Esse rato antiquado ainda terá que aprender muito, antes de levar minha carteira, ou, algo que seja realmente útil, de meus bolsos!

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