Quase um Macunaíma!

7 Quase um Macunaíma

Joel era um rapaz de vinte e cinco anos, desempregado já há algum tempo e estava à procura de qualquer tipo de trabalho! Era uma ensolarada e abafada manhã de segunda-feira e o relógio da matriz acabara de bater dez horas. Pouca gente nas ruas; até parecia um feriado ou algo do tipo. Com o rosto pingando de suor e a camisa já toda colada ao corpo, Joel caminhava absorto em seus pensamentos enquanto ansiava por um bom copo de água fresca, ou, um refrigerante. Após contar e recontar o dinheiro que tinha no bolso, achou melhor procurar por alguma torneira de jardim; devia haver alguma por ali. Estava numa área de prédios chiques e havia crianças bem vestidas que brincavam com seus muitos brinquedos, enquanto as babás se ocupavam em conversar, rir e em andar de um lado para o outro, como quem não tem exatamente muito que fazer, ou, em que pensar.

O prédio à sua esquerda tinha a área de estacionamentos bem mais alta que a rua, com uma acentuada rampa de descida gramada e uma cerca, em barras de ferro de uns oitenta centímetros de altura, sobre um muro de arrimo que fazia a divisa do prédio com a rua. As crianças se divertiam a valer, correndo e andando de bicicleta e skates por entre os poucos carros estacionados ali naquela hora. Ele estava passando pelo prédio quando ouve, entre os muitos gritos das crianças, um grito que soava agudo, diferente e assustador! Joel olha atônito! E, para seu desespero, ele vê uma garotinha que vem descendo a rampa do jardim numa bicicleta em considerável velocidade, com as pernas abertas para a frente e em total pânico! Numa fração de segundos ele calculou que a bicicleta iria por certo se enroscar na grade e que a menina iria ser projetada de cabeça contra algum carro estacionado em frente ao prédio. Como a menina estava descendo há alguns metros adiante dele, Joel teve que correr em sua direção e, de um salto – como um goleiro, ele pegou a cabeça dela e tentou, ao máximo, alinhar o restante do corpinho da menina paralelo e em cima do seu para amortecer a queda. Depois disso, só o que pode ainda perceber foi um baque surdo de seu próprio corpo contra a calçada e como que um estrondo em sua cabeça, que bate em algo bastante sólido e então, tudo apagou!

De repente ele acorda atordoado, todo dolorido e com tudo girando em sua mente. Tenta abrir os olhos, mas dá conta de que estes estão pesados e mal consegue ver o vulto de uma moça negra, rosto redondo, cabelos curtos de corte arredondado, de uns vinte anos de idade, quase que se debruçando sobre o seu leito e que, sorrindo, lhe diz calmamente:

_ Oi, tudo bem?

Joel com muito custo tenta olhar para um lado, para o outro, mas tudo o que consegue é constatar que está todo enfaixado e preso a um leito de hospital.

_ Hã… Onde eu estou…? O quê… aconteceu?

A moça, muito calma e sempre sorridente, em poucas palavras lhe põe a par de tudo. Foram mais de dois dias em coma e agora a vida recomeçava… em péssimas condições!

_ Meu nome é Rosália, mas as pessoas me chamam de Rosa. (disse a moça) Eu trabalho com meus pais, na fazenda do doutor Ruy, avô da menina e ele disse pra mim ficar aqui e te fazer companhia…

_ E… e a menina? Como está ela? (indaga Joel)

_ A menina está muito bem; só levou uns esfolões aqui e ali, no joelho esquerdo… Fizeram uns curativos, rapidinho, e ela foi logo pra casa. Parece que a parte ruim do acidente sobrou mesmo foi pra você! A médica disse que você quebrou uma costela, e teve uma trinca na cabeça… Eu não sei explicar muito bem, mas parece que é isso.

O rapaz se dá por satisfeito com a explicação e volta a fechar os olhos, devido às fortes dores no lado direito de seu tronco e na cabeça.

_ Moço! Não dorme de novo não…! Por favor! A médica disse que quando você acordasse era pra mim manter você acordado! Eu já chamei a enfermeira pela campainha… Ela já deve estar chegando…! Dorme não! Acorda, moço…!

O rapaz, que estava perfeitamente acordado e lúcido, não tivesse com a cabeça toda enfaixada e com tão fortes dores teria soltado uma gostosa gargalhada, face a tamanho desespero da moça! Com um aceno e ainda sorrindo como podia, apesar das dores, disse:

_ Calma, Rosa; eu estou acordado e estou bem. Quantos anos tem a menina e como se chama? Fale-me sobre ela…

_ Ela se chama Mariana e tem uns oito anos (disse, já num tom de voz bem mais tranquilo). A mãe dela se chama Marina e é filha do doutor Ruy. A dona Marina estava na faculdade, na hora do acidente; ela está fazendo agronomia. Ela e o doutor Ruy têm passado por aqui todo dia, pra ver como você está. Não demora muito e eles devem aparecer.

Rosa tinha uma fala bem simples e compassada. Não parecia ter lá muita instrução, mas era desenvolta, tinha uma voz suave e era uma negra muito bonita e simpática. Joel, que estava mais do que satisfeito com a companhia da moça, ouvia-a de bom grado já pelo espaço de quase meia hora quando, após um “toc-toc-toc” na porta, entram o seu Ruy e a filha Marina. O seu Ruy era agrônomo e, além dos trabalhos em sua fazenda, se ocupava também na construção civil, numa espécie de sociedade que mantinha com o filho mais velho. Mas, o que realmente chamou à atenção de Joel, foi a curiosa figura de Marina. Ela era ainda nova; talvez uns vinte e três anos, morena, de cabelos pretos e lisos que lhe davam pelos ombros. Ela era do tipo “roliço” – sem cintura e quase não tinha seios; definitivamente não era bonita, mas era muito simpática e atraente!

A conversa que se segue girou em torno do trivial, como: Nome, endereço, parentes, familiares, namorada, amigos ou algum patrão, que devessem ser avisados e blá, blá, blá… Nada daquilo estava absolutamente interessando a Joel que era um tipo interesseiro e bastante objetivo; mas, ele respondia sempre com educação e seriedade. Na verdade, de tudo o que foi dito, as únicas coisas que lhe interessaram mesmo foram a intenção do seu Ruy de lhe dar trabalho, após o seu período de convalescência, e, também o fato de que Marina, apesar de não dizer uma só palavra, não tirava dele os olhos e manteve, por todo o tempo, um lindo e leve sorriso.

_ Estamos com muita sorte de você ainda estar vivo. (disse por fim Marina, após a saída de seu pai e após a dispensa de Rosa para ir esticar as pernas e tomar uns ares no jardim do hospital. Marina era extremamente calma, tinha os olhos morteiros – só se via a parte inferior do globo ocular e falava tão baixo e suave que para ouvi-la alguém teria que estar olhando para ela e ainda prestando atenção)

_ Gostaria que você aceitasse os meus mais sinceros agradecimentos por ter se oferecido pra sofrer, na pele, o que era pra minha filha, eu, meus pais e meus irmãos sofrermos.

_ Ora, Marina; isso não foi nada. Eu só fiz o que qualquer pessoa teria feito, estando ali no meu lugar (disse Joel visivelmente embaraçado e também curioso, por ela ainda não ter sequer mencionado a existência do marido).

_ Essa menina é tudo o que eu realmente tenho; ela é a razão pra toda a minha luta, e…

_ Marina, você não precisa me agradecer. (interrompe Joel, que era sempre muito direto e objetivo) Eu estou mais do que satisfeito só de saber que a menina está bem e que não sofreu nenhum ferimento grave. Só tem uma coisa que está me intrigando nisso tudo, se é que eu posso perguntar; é quanto ao pai da menina; por que é que ninguém fala sobre ele…?

_ Hã… É, o… pai da Mariana…! ( suspiro) Bem… é que… Minha vida não tem sido nada fácil, Joel. Eu era ainda muito nova quando eu…

_ Marina, por favor, não precisa continuar ‒ se não quiser. Isso dói, eu sei. Eu acho que posso perfeitamente inferir o essencial do restante da história, sem que você tenha que se dar ao trabalho e à dor da lembrança. O mundo é assim mesmo; enquanto tem pessoas que anseiam tanto por serem pais, por terem filhos, tem também aquelas que se esquivam, a qualquer custo, da responsabilidade de seus próprios atos. Mas, eu fico feliz, de verdade, por você ter assumido a responsabilidade e cuidado da menina. Eu gostaria muito de conhecê-la! Ela tem oito anos, não é isso?

_ Na verdade não; ela acaba de fazer sete. Amanhã eu poderei trazê-la aqui pra que ela te agradeça pessoalmente – é importante isso! E também, pra que você a conheça… Ela é uma “euzinha” em pessoa! Ela sou eu em miniatura. É como se diz: Tal mãe, tal filha! (disse sorrindo e sinceramente sensibilizada por tamanha discrição e gentileza do rapaz!)

Joel, que a essa altura já estava mais do que interessado em impressionar a moça, diz:

_ Marina, você me promete não se ofender, se eu disser alguma grande bobagem… do tipo…

_ Claro, Joel! Seja o que for, diga!

_ É que, quando eu penso na Mariana, eu sinto como se eu e ela tivéssemos toda uma história juntos… Dá pra entender? É estranho… Até parece que eu já a conheço… a anos…

Nisso, ouve-se vozes e passos de criança correndo… A porta do quarto se abre e, de súbito, entra o seu Ruy tentando segurar Mariana que, feliz, faceira e barulhenta, logo acha um jeito de se aproximar da cama, se esticando e tentando ver o rosto do rapaz.

Joel, com um largo e caprichado sorriso, já se sentindo quase em casa, diz consigo mesmo:
(Oi, filhinha! Muito prazer em conhecê-la!)

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