O Misterioso Sumiço dos Industrializados!

8 O Misterioso Sumiço dos Industrializados

Chico vivia com o pai – o seu Luiz, a madrasta – Da. Mara, e com a meia-irmã – Marrí (na verdade, Maria Rita) que amava infernizar-lhe a vida! em uma área rural que distava uns cinqüenta quilômetros da cidade mais próxima. Era uma fazenda comum; com várias casas de colonos, além da sede e de outras edificações de apoio. Chico havia saído cedo, pra fazer umas compras na cidade e tivera um dia extremamente difícil! Daqueles em que tudo parece sair ao contrário do que deveria! Chega em casa bem mais tarde do que o habitual e todos já estavam deitados. Cansado do sol escaldante e do constante sacolejo da viagem, ele mal toma uma ducha, come do que havia sobrado da gostosa feijoada do almoço e vai pra cama, já quase dormindo.

Era lua cheia e a noite estava linda! Podia-se caminhar em plena noite sem necessidade de qualquer outra luz, que não a do luar. À meia-noite em ponto ele sente a cama sumir de debaixo de si e Chico desaba ao chão! De repente ele se vê deitado no solo úmido e frio, atordoado e assustado com um forte tremor de terra…! Uma coisa doida, que ele nunca tinha visto antes! Após procurar, sem sucesso, o chinelo à beira da cama, ele resolve ir descalço mesmo à procura do pai e ver como estavam todos e, no atropelo, nem se dá conta de verificar como ele próprio estava.

— Pai, vocês estão bem? (indaga ele cambaleante e com voz trôpega)

— Sim, eu acho que sim… O que houve? O que foi isso?

Levou quase meia hora para que todos percebessem que estavam completamente nus, que não havia mais a casa em que moravam e nem qualquer objeto, móvel ou utensílio doméstico que tivesse sido industrializado! Não tardou muito e todos os colonos foram se reunindo nas proximidades da sede da fazenda… envergonhados e escondendo-se como podiam. Felizmente o celeiro (onde guardavam o milho em espigas) e também a garagem (onde ficavam o trator e alguns implementos agrícolas) haviam sido construídos com madeira de pau à pique e cobertas com sapé; foi o que sobrou; assim, as mulheres e as crianças foram se abrigando na garagem – que acabara vazia, enquanto que os homens foram para o celeiro, para discutirem sobre o forte e incomum tremor de terra, sobre o que teria acontecido a tudo o que fora produzido pela indústria moderna, e, o mais importante, decidirem sobre “O que fazer agora…?”

Seu Luiz, o dono da fazenda, era um agrônomo muito culto, o mais velho do grupo e, naturalmente, a maior autoridade ali presente; mas, tão aturdido estava com os estranhos e misteriosos acontecimentos, que só foi se manifestar após todos já terem dados seus mais insólitos palpites… sem, contudo, chegarem a conclusão alguma!

Faltava pouco para amanhecer o dia e a linda luz matinal parecia querer comunicar o começo de uma era totalmente nova para o que restou da humanidade no planeta Terra. Resoluto, seu Luiz vai até a garagem, pega sua esposa pelo braço – com ela protestando muito e tentando se cobrir com as mãos e com os braços…

— Vem, Mara; é importante; confia em mim. (diz ele com firmeza e determinação)

Seu Luiz convoca, já se dirigindo para lá, uma reunião geral a se realizar no terreiro da sede da fazenda. A princípio as mulheres não queriam sair do seu “esconderijo”; mas, quando viram dona Mara “valente!” ao lado do seu Luiz e em frente a todos os homens, uma a uma foi saindo da garagem, com seus filhos, e se colocando ao lado de seus respectivos maridos. Só quando seu Luiz consegue cem por cento da audiência é que ele começa a falar.

— “Nada! nesse universo em que vivemos, acontece sem uma “causa”, ou, sem uma “razão” bem específica. (diz seu Luiz em tom pausado, enfático e com ares de quem sabe o que está falando)

“Sem dúvida que o mundo, tal como o conhecêramos até ontem à noite, não poderia ir mesmo muito mais longe do que foi, face a tantas intrigas, inimizades, guerras, abusos de todo tipo e desrespeitos contra tudo e contra todos! Somos pequenos demais para querermos explicar tudo, ou mesmo qualquer coisa, à nossa volta; no entanto, o que podemos dizer, com certeza, é que somos hoje um pequeno grupo de privilegiados. Sim, senhores! Tivemos a extrema sorte de não estarmos, à hora do acontecimento, num avião ou num transatlântico em alto mar… Imaginem vocês; o que aconteceria se vocês estivessem num prédio de apartamentos e de repente, simplesmente desaparecesse todo ferro, pedra britada e cimento…? Ou mesmo, imaginem vocês num carro a cem quilômetros por hora… Poderia ter sido muito pior; sem dúvida!

“O que aconteceu aqui, não pode ter acontecido só aqui; foi global. E, como já pudemos constatar, não nos restou absolutamente nada de qualquer produto industrializado; nem rastro, e nem cheiro! Seria ótimo se pudéssemos contar agora com alguma faca, facão, foice, machado e etc., mas não podemos. Tudo agora terá que ser improvisado e/ou reinventado. Esse é um momento único em nossa história. Teremos que nos reorganizar a partir do zero; e, as palavras de ordem para o momento, são: Respeito, disciplina, criatividade e muito trabalho! Não temos nada, precisamos de tudo, e não temos qualquer ferramenta pra nos ajudar!

“Como vocês bem podem imaginar, se não existe mais papel, nem carimbo e nem assinatura em documentos, então não existe mais nem propriedades e nem proprietários; nem dinheiro, nem jóias, nem graus de importância, nem títulos de honra e nem autoridades instituídas. Estamos todos exatamente como nascemos. Todos ao natural, iguais, e também no mesmo nível político-sócio-econômico. A nossa única esperança agora é nos unirmos como um clã, nos estruturarmos numa boa política de convivência, com uma boa orientação de procedimentos e defendermos, nós mesmos, a nossa integridade e sobrevivência…”

Seu Luiz falou até o nascer do sol e ressaltou especialmente a necessidade de muito respeito – entre homens e mulheres, disciplina, e também sobre o trabalho comunitário e suas principais características e responsabilidades. Sem dúvida que mandou muito bem em seu discurso inaugural… Difícil mesmo seria, agora, se acostumar com o “novo”; que, a rigor, era praticamente tudo…

— Chico! Ô, Chico! Que coisa, homem… levanta! morreu, foi? (diz Marrí, dando-lhe com muito gosto uns fortes safanões)

— Hã… É… O que houve…? (diz Chico tentando se recuperar do susto. Olha pra ela, abobalhado, quase não podendo acreditar no que vê…)

— Uai, Chico… Que cara é essa?! Por que me olhando desse jeito? Ó, melhor levantar logo! Toma o teu café e vai que o pai danado de bravo c’ocê; te esperando lá na garagem!. (diz Marrí feliz e satisfeita enquanto se afasta em seu costumeiro e sensual rebolado)

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