Hum… E por que não?!

5 Hum E por que não

Luizão era moreno claro, estatura mediana, não era obeso mas trazia consigo uma barriguinha ‒ que não o abandonava por nada! Era um típico caipira que viera do interior para a capital a procura de uma vida melhor, já há alguns anos, mas que continuava preferindo a calma e a solitude a muito movimento ao seu redor. Completara o Segundo Grau com alguma dificuldade, conseguira um trabalho de almoxarife na construção civil, alugara uma modesta quitinete ‒ onde morava só e já estava quase se dando por satisfeito com a vida não fosse a ideia de casamento que, vez ou outra, lhe passava pela cabeça. Acabara de completar vinte e sete anos e até já tinha alguma condição financeira para se casar; mas, a grande questão era: Com quem? Como ele não era o que se podia dizer “um bonitão” e ainda muito pouco comunicativo, seus horizontes, nesse quesito, decididamente não lhe acenavam muitas esperanças.

De volta ao apartamento, após a jornada de trabalho, ele tinha por costume gastar ainda algumas horas pintando e, para isso, ele mantinha sempre umas três ou quatro telas em andamento. Dentre essas, ele estava pintando o retrato de uma moça (da cintura para cima) visivelmente pobre e sofrida mas de cujos olhos irradiava muita vida e uma exuberante alegria… como que antevendo uma grande melhora em sua sorte! As vezes pensava que uma modelo presencial iria lhe proporcionar muito mais vida a seus retratos; mas, logo descartava essa idéia; sua timidez era tamanha que só de pensar já ficava apavorado! Tão entretido estava na pintura e com a moça imaginária, que nem viu as horas passarem e só se dera conta do tardio do tempo porque a fome lhe batera de repente.

_ Eita! Quase dez horas! (disse consigo mesmo)

Há estas horas o restaurante próximo, onde costumava jantar, já devia estar fechado ou se preparando para fechar. Após uma rápida conferida na geladeira, achou melhor se agasalhar e sair o quanto antes.

Apesar de verão, a noite de Sexta-Feira não estava nem um pouco convidativa para se sair de casa. A forte pancada de chuva e vento já haviam amainados e apenas um chuvisqueiro fino insistia em cair sobre o calçamento ainda não de todo frio. Havia um bar, próximo ao prédio onde Luizão morava, que servia um churrasquinho no pão que era uma boa pedida e quase sempre isso lhe servia de refeição. Sem muitas opções, resolveu ir direto para lá. Após fazer o pedido, no balcão, procurou se sentar à sua mesa preferida que ficava num canto do bar, já quase na saída, com apenas uma treliça de madeira entre a mesa e a calçada. Terminado o lanche, estava já pronto para se levantar quando surge de repente uma moça clara, vinte e poucos anos, pouco mais de um metro e meio de altura, magra, usando uma camiseta branca e uma calça jeans um tanto apertada. Seus cabelos eram claros ‒ quase loiros, levemente encrespados, cuidadosamente esticados e amarrados para trás, tipo rabo-de-cavalo. A moça tinha a cabeça e os ombros bem molhados pela chuva fina e trazia uma criança nova ao colo. Luizão ainda estava apreciando a súbita e curiosa figura quando se deu conta de ouvir, talvez já pela segunda ou terceira vez, a moça dizer:

_ Moço, paga um lanche pra mim? Eu estou com fome.

Com um leve aceno de mão ele a convida a se assentar à mesa com ele. O garçom, quando a viu entrando, marchou decidido em sua direção já pronto para despachá-la quando Luizão, com a calma e vagareza que lhe era peculiar, pede que este a atenda.

_ Eu quero um X-Tudo! Mas ó, é TUDO mesmo, hein!

_ E pra beber, (indaga o garçom) vai um refrigerante?

_ Não; (diz a moça olhando para Luizão, como que buscando a sua aprovação) eu quero um copo de leite; mas daqueles tamanho bem grande!

_ O senhor veja só a importância que tem o respeito de um homem; (diz ela enquanto o garçom não chega com o pedido) não tivesse o senhor autorizado o lanche e esse “paletó branco” já teria me atirado lá no meio da rua!

Chegado o lanche, a moça virava a criança para um lado, para o outro, tentando achar uma posição que lhe permitisse saborear o lanche e ainda segurar a criança ao colo.

_ Quer que eu segure a criança, enquanto você come? (disse Luizão)

A moça não se fez de rogada e aceitou de pronto. Sempre com os olhos fitos na criança, como que encantado, ele pergunta:

_ É menino ou menina?

_ É menina. (diz ela mastigando com vontade)

_ Como se chama?

_ “Minha Fofa”. (diz ela num tom bem humorado)

_ Como assim? (indaga o rapaz, visivelmente insatisfeito com a resposta)

_ Se zangue não, seu moço. O caso é que ela nasceu faz poucos dias e como eu ainda num registrei ela

_ E o pai da criança…? (indaga, titubeante, sabendo que estava fazendo uma pergunta idiota)

_ Como é o nome do senhor? (lhe pergunta ela)

_ Luiz Carlos; mas pode me chamar de Luizão; é assim que me chamam.

_ Olha, seu Luiz; o senhor pode pensar de mim o que o senhor quiser; é um direito seu. Mas eu tenho que lhe dizer que eu não sou nem piranha e nem mulher à toa. Eu morava com um sacana, o pai da criança, que agora arranjou uma outra; só isso. Eu trabalhava de doméstica e fazia de tudo que é serviço de casa; e fazia muito bem! Bom, só cozinhar que… O senhor sabe; cozinhar pra madame não é “sopa”! E… acontece também que eu saí do emprego, há dois meses, pra ter a criança… e depois, o bandido me manda embora; eu e a “Minha Fofa”. Ele até que não era um sujeito de todo ruim; o problema é que quando ele bebia ele ficava valente que só! O que eu nunca entendi é por que é que ele não batia no dono do bar, nos amigos, na polícia… Deve ser porque bater na mulher é mais fácil; deve ser. Mas eu num tô nem ligando pra ele; se era pra me bater, como ele me batia, então eu prefiro que ele arranje mesmo uma outra pra “saco de pancadas”!

Luizão ouvia tudo mas prestando atenção apenas à menina; inclusive estava achando muito curioso que a mãe estivesse tão molhada, da chuva, e a menina tão enxutinha! A moça devia ser uma boa mãe ‒ pensava ele. Estava ali, absorto em seus pensamentos, quando percebe que a moça já havia terminado o lanche e também parado de falar.

_ O senhor leva jeito pra segurar criança; (diz ela sorrindo) o senhor é casado?

_ Não.

_ Mas já foi. (diz ela quase indagando)

_ Não. Ainda não.

Depois de uma pausa, ainda olhando para o rapaz, ela diz:

_ Então, por que o senhor não adota a Minha Fofa? (diz ela de súbito) É, o senhor adota a menina e de brinde o senhor leva a mãe dela… Duas pelo preço de uma! (diz ela em seu estranho humor)

_ Você é esperta… (diz ele, sem saber exatamente o que responder)

_ Olha, seu Luiz; se eu sou esperta, isso é o senhor quem está dizendo. O que eu sei é que se o senhor adotasse a minha filha, eu iria cuidar muito bem dela, pro senhor, e eu iria cuidar muito bem do senhor e também da sua casa; pode ter certeza disso!

Finalmente ele para, olha e presta atenção à moça.

_ A julgar pelas aparências, você deve estar amamentando, não? (resmunga ele quase que de si para si) Eu imagino que um vestido bem folgadinho e de abotoar na frente iria te facilitar “e muito!” a amamentação… O cabelo solto, e mais curto, com certeza ficaria também muito melhor pra você… Ah! E, quanto à menina, a gente bem que poderia chamá-la de Sarinha; o que você acha?

Depois de uma rápida pausa, olhando para a criança, e depois para a moça, diz:

_ Hum… E por que não!?

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