Brancos e Negrinhos

6 Brancos e Negrinhos

Álvaro era um rapaz com seus vinte e cinco anos e que tinha tudo o que se pensa ser necessário para ser feliz. Era um tipo alegre, bem humorado e levava tudo “na flauta”, mesmo quando os colegas tentavam tirá-lo do sério. Andava sempre rodeado de amigos, de garotas e raramente era visto só. Um dia um colega lhe perguntou qual era o segredo de tanta felicidade, tantos amigos e de tanta popularidade? Ao que ele respondeu, sem pestanejar:

— O segredo é a gente não viver tentando pegar os “biscoitos” que estão nas prateleiras mais altas do que o nosso alcance. Eu procuro sempre me alegrar com o que tenho e procuro ser amigo dos que querem ser meus amigos; acho que é isso!

Álvaro era da chamada “classe média alta” e seus abastados pais nunca lhe privavam de qualquer coisa que desejasse. Além de ter feito conservatório de música – violão clássico, ele concluíra também a faculdade de administração de empresas e, com isso, já se dera por satisfeito com os estudos. Os pais, que queriam vê-lo na direção dos negócios da família, simplesmente não se conformavam com a sua falta de maiores aspirações! Mais de ano se passara, desde a sua graduação, e até agora nada de Álvaro mostrar interesse por qualquer trabalho, ou, pelo prosseguimento dos estudos! Seus pais temiam muito que o filho se desencaminhasse pelos vícios e pela vida desregrada que o andava assediando. Eles até já estavam encurtando o financiamento da sua “boa vida”, como represália, o que parecia estar dando algum resultado; mas, a verdade é que; com muito, ou com pouco, Álvaro continuava firme em seu desinteresse por trabalhos, e, seguia sem rumo certo. Um dia, censurado pela mãe por não estar namorando sério, para se casar, brincando ele responde:

— Ah, mãe! Enquanto eu não encontro a mulher certa, eu vou me divertindo com as erradas mesmo!

Dona Letícia, que já andava preocupada com os gastos excessivos, misteriosos, e com as frequentes e longas ausências do filho, se aborrece agora com a sua piada de mau gosto e resolve por um fim àquela desconfortável situação. Em comum acordo com o marido, ela convoca o filho para uma pequena reunião de família e expõe a ele o novo plano e suas regras.

— Álvaro, eu e teu pai te amamos muito e é por isso mesmo que estamos pensando em impor alguns limites à tua vida de libertinagens. Por exemplo, você acaba de voltar de uma ausência de quase quinze dias; agora, me diga: Por onde você andou? Com quem? E, fazendo o quê?

Álvaro, de cabeça baixa e sempre se desviando dos olhares da mãe, resmunga qualquer coisa ininteligível, com um gesto de mãos sem significado algum e se levanta, na intenção de evadir-se.

— Espere, Álvaro; (diz a mãe) eu não entendi nada do teu resmungo e também não acabei com as minhas perguntas. Por que você vendeu o seu carro? Se meteu em alguma enrascada; não foi? E você acha mesmo que passar os dias enfurnado em seu quarto como que “amedrontado!” de sei lá o que, seja algum tipo de solução?

— Filho, (diz o pai com sua voz rouca e pausada) você pode se abrir comigo, ou com a sua mãe; é só você nos dizer qual é o problema, exatamente, e nós vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance pra te ajudar! O que está acontecendo, filho?

Como Álvaro não respondia a nenhuma das perguntas e também não buscava nenhum tipo de ajuda, seus pais resolveram dar-lhe um ultimato; o prazo máximo de um mês, para que ele se decidisse por algum trabalho ou estudo e que voltasse à vida normal.

— O nosso desejo é que você continue não só contando conosco, como pais, mas que você esteja também colaborando conosco em alguma de nossas atividades como lojistas que somos; mas, você tem total liberdade de escolher tanto o tipo de trabalho, como também o seu patrão. Nós iremos respeitar a tua escolha. Alguma dúvida, filho? (pergunta sua mãe)

— Não, mami; está entendido.

— Então, me diz o que foi que você entendeu, de tudo o que te dissemos? (se certifica o pai)

— Eu entendi que vocês querem me ver trabalhando, gastando menos e que não me meta em confusões.

— Não estamos te pedindo muito; estamos? (indaga a mãe ainda muito irritada)

— Não, hã… Não.

Álvaro pareceu querer lhes dizer mais alguma coisa, mas, estava tão triste, desorientado e incapacitado de organizar as ideias, que achou melhor guardar silêncio. Após uma boa ducha ele abre bem a porta do quarto e também a que dava para a sacada, se joga na cama e fica imóvel até adormecer. Quando acorda, com fome, já era por volta de três da manhã. Sem acender as luzes, ele resolve procurar alguma coisa na geladeira e desce para a cozinha. Para sua surpresa, na penumbra, ele quase que tropeça em alguém dormindo debruçado na mesa da copa… Era Elza, uma das empregadas, ainda em seu uniforme de trabalho.

— Ei…! O que você está fazendo aqui? (pergunta ele em sussurro, acordando-a)

— Hã… O quê? Hum… Que horas são?

— Quase três da manhã. O que houve? Por que você está aqui… assim!?

— Eu sabia que você viria… mais cedo ou mais tarde. Senta aí; (diz Elza já acendendo a luz) eu vou esquentar a comida pra você.

— Não…! Já está quase na hora do café da manhã! Basta um copo de leite e uma fruta… se é que faz questão.

Elza põe num pratinho uma maçã, uma pera, pega um copo de leite gelado e traz para Álvaro, na copa. Ele, quando a vê se aproximando, se levanta e a recebe com um gostoso abraço e um beijinho de boa noite.

— E não me faça mais isso, hein!? Eu… não me sinto bem, assim. Por favor, vá pra sua cama e descanse. Ah, e, obrigado pelo cuidado! Você é um anjo!

Álvaro despede Elza com um carinhoso cafuné em sua nuca e, olhando para a escada de acesso ao andar superior da casa, ele percebe o vulto de sua mãe chegando…

— Ora, vejam só…! Alguém pode me explicar o que está acontecendo por aqui?! (diz dona Letícia enciumada e olhando para Elza com um olhar fulminante)

— Eu! Eu posso! (diz Álvaro brincando, levantando bem alto uma das mãos)

— Então… por favor! (diz dona Letícia muito, muito zangada!)

— A Elza; ela percebeu que eu não havia descido pra jantar e me esperou aqui, dormindo debruçada na mesa da copa até que eu acordasse e viesse procurar alguma coisa pra comer; ela queria esquentar a comida pra mim. Mas, não se preocupe; eu já pedi a ela que não me faça mais isso… nunca mais! (diz, como sempre, sorrindo)

— Diga a verdade, Álvaro. Você e a Elza estão… Hã?

— Espere aí, mami, eu tenho a senhora quase como uma santa, em minha memória. Por favor, não me faça pensar e guardar da senhora uma péssima lembrança. Afinal; parece mau, à senhora, que eu seja estimado por alguém?

Dona Letícia, que estava se mordendo de ciúmes e de ódio da empregada, por estar se aproximando de seu filho, de repente vê nisso uma grande oportunidade! Se disfarça, deseja uma boa noite ao filho e volta pra cama.

Na manhã seguinte, antes de sair para o trabalho, ela chama Elza no escritório para conversar. Elza entra, muito amedrontada e sem jeito, enquanto dona Letícia começa o interrogatório.

— Elza, você pode me dizer o que existe entre você e o Álvaro?

— Uai, dona Letícia, num existe nada não!

— Claro que existe, Elza. O que eu estou querendo saber é “o quê”, e não “se”. Não tenha medo, diga! Eu não estou aqui pra ralhar contigo, ou pra te censurar; na verdade, eu te chamei porque eu estou precisando de um favorzinho seu. Meu filho anda com alguns comportamentos bem estranhos, ultimamente, e eu não estou conseguindo saber dele o que se passa. Daí que eu pensei: Quem sabe se você, com a sua amizade, tenha sabido algo dele que eu não esteja conseguindo saber?

— Eu, num tô entendendo… Pois pra mim, ele num tem nada de estranho e o comportamento dele num poderia ser melhor!

— Hum… Então, vamos tentar na base de perguntas diretas: Você tem saído com ele?

— Não, senhora. Nunca!

— E você sabe, ou, tem idéia de onde ele tem ido, como dessa última vez em que ele demorou quase quinze dias pra voltar?

— Isso eu num posso dizer não senhora.

— Aha… Então você sabe!

— Sei sim; mas eu num posso dizer.

— Claro que pode! Eu sou a mãe dele e a minha preocupação é tão somente a segurança e o bem estar dele!

— Hum. (Elza acena que sim, com a cabeça)

Elza era a única negra entre os serviçais da casa. Ela tinha uns vinte e poucos anos, era alta, bem magra, rosto comprido e um pouco feinha; mas, era muito disposta, trabalhadeira, sorridente e muito simpática! Sua função, na casa, era a limpeza e a arrumação de todos os quartos e demais aposentos da pequena mansão. Álvaro, sempre muito boa praça, tinha amizade com todas as empregadas; mas, com Elza era diferente; era simplesmente impossível ele retornar de alguma viagem, ou de algum passeio, sem lhe trazer alguma lembrancinha, por simples que fosse. Dona Letícia, que sempre apreciou a presteza e a eficiência de Elza no trabalho, agora tenta tirar proveito da amizade desta com o seu filho tentando suborná-la com ares de gentileza e de compreensão.

— Então, Elza; se você sabe por onde ele tem andado e o que tem feito, por favor, me diga. Eu já perguntei isso a ele, já tentei de tudo e ele não me diz uma só palavra… Eu preciso saber o que está acontecendo.

— Dona Letícia, eu gosto muito da senhora, do seu Maurício, do Álvaro e também do meu trabalho aqui; por isso, por favor, num me obrigue a ser má com a senhora e a por tudo isso a perder. Esse trabalho é muito importante pra mim.

— Claro, Elza; eu não estou querendo te prejudicar, de forma alguma. Apenas diga o que você puder me dizer sobre ele… Vamos, diga!

— Dona Letícia; se ele num quer falar, ele mesmo, então é porque, por alguma razão, ele num quer que a senhora saiba. E, se eu traísse a confiança dele, hoje, nem a senhora mesma iria confiar em mim… nunca mais!

A essa altura dos acontecimentos já estava claro que a moça não iria falar; pelo menos, não pelos meios normais. Dona Letícia, no seu desespero, resolve tentar algo mais audacioso…

— Elza, você não sabe ainda o que é ser uma mãe em angústia, em desespero e sem alternativas… Mas tudo bem; tudo nessa vida tem um preço. Então, vamos lá; você me ajuda e eu te ajudo. Quanto, ou, o que você quer pra me ajudar? Vamos, diga! Seja o que for! Um aumento? Um cargo de chefia dos serviçais? Bastante dinheiro? O que você quer? É só você me dizer o que você sabe sobre a vida estranha que o meu filho anda levando… Só isso!

— Ora, dona Letícia; qualquer uma dessas ofertas da senhora, pra mim, já seria demasiado! Mas, tudo isso junto ainda num seria nada – em comparação com o valor da confiança que o Álvaro tem depositado em mim. Na verdade, tudo o que eu queria mesmo é que a senhora confiasse um pouco mais nele. O Álvaro é um rapaz muito precioso, dona Letícia! Ele é muito mais do que apenas um bom rapaz, bonito, alegre, de coragem… Quem me dera ter, um dia, um filho com os valores morais, com a garra e com a dignidade do Álvaro!

Diante dessas palavras, dona Letícia se dá por derrotada e entra num colapso nervoso. Envergonhada, amargurada, com raiva, “com ódio!” e sem qualquer esperança de sucesso em sua investigação, ela cai num choro tão profundo e incontrolável que só para quando já quase não lhe restam mais forças. A casa toda se agita, se comove, entra em polvorosa e se condói da patroa, praguejando contra a negrinha insolente que, “sabe-se lá como!” quase que mata a pobre da dona Letícia! Seu Maurício, que já havia ido para o trabalho, retorna à casa e tenta trazer de volta a paz e a normalidade do movimento. Elza tenta explicar para o patrão o ocorrido, mas, tudo parecia em vão, uma vez que ela não podia mencionar a desesperada tentativa de suborno por parte da patroa. A contragosto, mas sem divisar qualquer alternativa, seu Maurício resolve despedir Elza que sobe, aos prantos, para despedir-se de Álvaro no andar superior. O rapaz, que não estava exatamente a par da confusão, estava já acabando de se vestir para descer quando Elza chega. Ele a toma pela mão e sai, correndo e tropeçando enquanto chama um táxi pelo celular.

— Onde estamos indo? (pergunta Elza ainda em prantos)

— Primeiro precisamos arrumar um lugar pra você descansar e se recuperar. (diz Álvaro tentando ajudá-la enquanto ela é que queria ajudá-lo a entrar no táxi)

Álvaro a leva para uma chácara da família, que distava uns cinquenta quilômetros da cidade. Não falaram muito pelo caminho; o movimento e a mudança de paisagem fizeram com que Elza se entretesse e até se esquecesse do seu pranto. A chácara era cuidada por um caseiro que, assim que os vê chegando, corre a recebê-los. Álvaro deixou a carteira com Elza, para que ela acertasse com o taxista enquanto ele atendia ao caseiro, que já lhes abria o portão.

— Bom dia, seu Álvaro!

Seu José, o caseiro, era mais conhecido por Zeca, mas Álvaro sempre lhe chamava pelo nome.

— Bom dia, seu José! (diz Álvaro tropeçando num morrinho de terra)

Seu José estranhou o tropeção do rapaz, mas logo concluiu que talvez fosse devido ao escuro óculos de sol que Álvaro estava usando. Após os cumprimentos, Álvaro resolve voltar e ver o que estava acontecendo… Elza estava na maior bronca com o taxista e achando “um absurdo!” o preço da corrida. Álvaro teve que explicar a Elza que o preço era de ida e volta, mais a bandeira-dois, estrada de terra… enfim; resolvida a situação, Elza toma a mão de Álvaro e ambos se dirigem para a varanda da casa, onde se sentam num banco encostado à parede da casa e, sem pressa nenhuma, eles conversam sobre o problema com a dona Letícia. Elza tenta explicar o ocorrido, mas, evitando qualquer alusão à chantagem ou a algo que pudesse denegrir a imagem da mãe do rapaz.

— Bom, (disse Elza) primeiro ela me perguntou se eu sabia por que você tem andado tão estranho, onde você tem estado, com quem e o que você tem feito nessas tuas frequentes viagens. Eu disse a ela que o teu comportamento, pelo menos pra mim, num tem sido estranho; mas, que eu sabia, sim, onde você tem estado; apenas que eu num podia dizer. Aí ela me apertou “muito!” dizendo que ela era tua mãe e que por isso eu tinha que lhe contar… Mas, o meu erro mesmo foi quando eu disse a ela: “Quem me dera ter, um dia, um filho com os valores morais e com a dignidade do Álvaro!” Assim que ela ouviu isso ela explodiu num choro tão alto e tão sentido que toda a casa veio abaixo! As outras empregadas parecia que queriam me linchar! Foi aí que o seu Maurício chegou e me despediu. Apavorada, como eu estava, eu achei que deveria me despedir de você, antes de ir embora… foi por isso que eu subi lá no teu quarto. Mas agora, tudo acabou! (diz ela desolada) Até que conseguir outro emprego num seria tanto problema; difícil mesmo será esquecer todo esse desastre! (Elza mal consegue terminar a narrativa e desaba outra vez em choro)

— Calma, Elza; tudo se ajeita, você vai ver! São justamente essas tempestades que nos fazem mais fortes e mais preparados pra a vida! É a isso que chamamos de “experiência!” (diz Álvaro sorrindo)

O caseiro e a esposa já haviam entrado na casa, aberto todas as portas e janelas e agora estavam fazendo uma limpeza e arrumação rápidas nas coisas; enquanto isso, Álvaro e Elza conversavam, ainda assentados no banco da varanda. Fim do dia, Elza já ia se levantar para preparar alguma coisa para comerem quando o celular toca. Álvaro atende e, quando vê que era o seu pai, pede para que Elza espere mais um pouquinho ali, ao seu lado.

— Álvaro?

— Oi, papi! Tudo bem? Como está a mami?

— Não muito bem; o momento é de dificuldades sobre dificuldades… Filho, nós estamos precisando muito de conversar contigo; você vem aqui, ou prefere que a gente vá até aí?

— Como está a mami, papi? Ela está aí em casa…?

— Está sim; ela está sedada, mas está bem; apenas que precisamos de te ver e também de conversar com você; só isso. Ah! E traga a Elza contigo; isso é importante. E então; vocês vêm?

— Claro, papi; já estamos saindo.

Álvaro não perde mais tempo e pede a José que os leve de volta. Ao chegar, inseguro e estabanado, Álvaro tropeça numa pedra mais alta, na calçada e cai, ralando um pouco o cotovelo e também o joelho direito; mas, logo se levanta e tenta não aparentar dor ou qualquer incômodo. Elza o toma pelo braço e ambos entram na casa. Nem foi preciso perguntar; as empregadas logo disseram que a dona Letícia, pobrezinha! estava repousando em seu quarto.

— Oi, mami, papi, como estão? (pergunta Álvaro enfiando o pé no chinelo da mãe e se enrolando todo com o tapetinho ao lado da cama)

Sua mãe, pouco se dá conta da chegada do filho. Olhando-o, muito vagamente, lhe dá um oi e inclina de novo a cabeça para um lado. Seu pai, sempre lúcido e a par de tudo, informa de maneira oficial que Elza está readmitida em seu posto, lhe pede desculpas, pede também que ela esteja cuidando de dona Letícia em sua convalescência e, em seguida, sai com o filho para uma conversa em particular.

— Filho, foi um baque muito grande pra nós… Mas, eu tenho que admitir; se você quis, de fato, encobrir o problema, você conseguiu… por um bom tempo! Mas, ninguém consegue esconder tudo, de todos, o tempo todo; certo? Eu só fui desconfiar de que algo estava errado com você quando hoje, de manhã, eu vi você saindo “tomado pelo braço!” e como que “levado!” pela Elza. Aí eu comecei contatando os melhores médicos nessa especialidade, por aqui, e até falei com um tal de Dr. Martin, em Nova Iorque, com quem você se consultou há alguns dias e foi aí que eu vim a saber de tudo! Agora, por que é que você não quis nos dizer sobre o teu problema…? Nós não poderíamos ter te ajudado…?

— Não, papi; eu já sou bem grandinho e eu tenho que saber me virar por conta própria, não tenho? E depois, eu não só não queria preocupá-los – antes de tempo, como também não queria que ninguém ficasse com pena ou com dozinha de mim!

— Mas, e você, como está? Você ainda enxerga… alguma coisa…?

— Sim, papi. Inclusive os médicos dizem que existe uma grande chance de estabilização no grau em que está. Eu não estou enxergando muito bem, apenas vultos; mas, eu consigo me virar.

— E o que você está pensando em fazer agora, face a esse problema?

Papi, tudo o que eu podia fazer, com respeito à enfermidade, eu já fiz. O que eu penso em fazer agora é arrumar uns óculos de pesada miopia que justifiquem o meu tateamento – com as mãos, e os meus constantes tropeções. Eu pretendo também pedir a Elza em casamento; eu sempre me dei muito bem com ela. Talvez precisemos de algum tempo, pra nos ajustarmos; ela terá que aprender a ser os meus olhos, e eu, terei que aprender a olhar com os olhos dela; mas, eu penso que pode dar certo. Só depois disso é que eu vou tentar me estabelecer como músico profissional e, com a ajuda da Elza, talvez eu até consiga dar aulas de música pra crianças e adolescentes.

Minha grande preocupação agora é: Como será que o senhor, ou, a mami, irá se ajustar à ideia de ter uma ex-empregada como nora, e, ainda com netos negrinhos? (disse Álvaro sorrindo)

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