Ufa! Essa foi por pouco…!

2 Ufa Essa foi por pouco

 — Mais um dia! (exclama Carlos exausto!)

— Eu não me queixaria disso; antes mais um, do que menos um (diz Nelson como sempre em tom de brincadeira, enquanto cumpria os últimos preparativos para deixar a aeronave). O que vamos fazer agora; jantar, ou tomar um porre?

Como Carlos não lhe respondera, Nelson volta à carga:

— Ora vamos, rapaz! O mundo não vai acabar em cansaço e mau humor; vai?

— Não, não vai; mas, o que preciso mesmo, por enquanto, é de um bom banho e de um bom sono.

— Bom, com respeito ao banho, eu até que concordo; mas, com respeito ao sono, eu não tenho tempo pra isso agora; talvez, bem mais tarde!

Carlos era o piloto responsável pelo jatinho particular que servia ao banqueiro Gaizka Aguirre, sua esposa Ruth e seus dois filhos: Danielle, de vinte e cinco anos e Jonathan, de vinte e dois. Carlos, vinte e nove anos, era um jovem bem apessoado, austero e muito compenetrado em seu trabalho; mas, ultimamente, ele vinha apresentando sérios sinais de estafa e uma constante irritação, o que começava a preocupar o seu amigo e copiloto Nelson – de vinte e seis. É certo que a viagem havia sido longa e que o sol de verão havia sido inclemente; mas, isso não era absolutamente razão para ele estar assim tão cansado e de tão mau humor.

— Você não gostaria de conversar e de se abrir comigo, Carlos? O que é que está acontecendo? Eu tenho notado que você já não é mais o mesmo; parece muito cansado, irritado… Ou seria aborrecido com alguma coisa em específico? Existe algo que eu, como seu amigo, possa fazer?

— Não, eu estou bem. É que eu preciso acessar na net as cartas de navegação e fazer o planejamento do voo de volta para amanhã; é só isso.

— E eu posso ajudar, nisso? (pergunta Nelson, já sabendo qual seria a resposta)

— Oh, não! Aproveite a estadia por aqui. Mas tenha juízo, rapaz; amanhã partiremos logo cedo e, como você bem sabe, a patroa Danielle não tolera qualquer atraso ou ineficiência.

Nelson se despede e vai para o seu bar preferido, onde joga bilhar, conversa com os amigos e aprecia a praia iluminada até altas horas da noite, enquanto que Carlos toma um táxi e vai direto para o hotel. No dia seguinte, já no aeroporto e se preparando para a partida…

— E aí, comandante! Em forma e animado pro caminho de volta? (pergunta Nelson enquanto contata a torre de controle e faz os últimos preparativos antes da taxiagem)

Carlos, como já era de se esperar, não responde palavra; em vez disso, continua checando os controles de flaps, ailerons, profundor, leme e etc. A maioria dos voos costumava ser entre Estados Unidos, Brasil e França, onde os Aguirre tinham residências e a maior parte dos negócios; mas, algumas vezes iam também para o oriente médio, o que era ótimo para quebrar a monotonia do trabalho.

— Veja só como são as coisas (diz Carlos pensativo, enquanto decolava em Miami, rumo a São Paulo); quando eu estava ainda estudando e me preparando pra ser piloto, eu era considerado a maior atração… e isso por onde quer que eu fosse! As garotas me amavam e os colegas me invejavam…! Hoje, que já sou piloto “há anos!” elas simplesmente desapareceram, ou, talvez, prefiram me ignorar. Você sabe como é; elas dizem que vida de mulher de piloto não combina com os seus anseios de esposas, de mães, ou, de donas de casa…!

Cara! (diz Nelson quase gritando um “eureka!“) Então é esse o motivo da tua zanga e irritação constante! (Nelson ri gostoso) Olha, eu não esquento com isso. No momento, eu não estou mesmo pensando em me amarrar; mas, quando chegar a hora, eu acho que vou me dar bem. Só como exemplo; você sabe que eu vivo dando em cima da patroa Danielle… Mas isso é só farra; isso não leva a nada! O que a gente tem que fazer, quando se está mesmo a fim, é procurar uma garota que seja madura, idônea, adequada, conveniente… O que eu quero dizer é que a gente tem que procurar uma gata que não seja tão exigente e implicante a ponto de se interpor entre a gente e a nossa profissão. E depois, a gente não fica tanto tempo assim fora de casa… Quer dizer… Ainda existe coisa muito pior por aí!

— Hum, não sei não (interrompe Carlos, com um sorriso meio sem graça).

Cara! (diz Nelson com o seu jeito divertido e dando um golpe no ar) Eu vou arranjar uma namorada pra você! Como você prefere; loira ou morena? Grandona ou pequena? Agitada ou serena? Lunática ou terrena? Escolhe: Lucélia, ou Lorena?…

— Nem pensa, Nelson! (interrompe Carlos que nunca estava para brincadeiras) Nem pensa!

Nesse momento Nelson olha o horizonte, checa de novo as cartas de navegação e a previsão das condições atmosféricas para o voo e o que vê o faz deixar prontamente a brincadeira de lado. Após a linha do equador, já entrando em solo brasileiro, um largo cinturão de nuvens muito altas, espessas, carregadas e escuras ia se formando.

— Parece que vamos ter que reduzir a velocidade pra diminuir um pouco o “sacode”, comandante (diz Nelson já fazendo os preparativos para enfrentar o mau tempo). Eu odeio essas formações de cumulonimbus… Me fazem lembrar daquelas rodovias esburacadas; ou, o que é pior; daqueles infames “quebra-molas” que a gente passa sem ver e “de repente!” a gente mete a cabeça no teto!

— É, e esse não vai dar pra contornar (diz Carlos quase que de si para si). Avise a Danielle pra se preparar e apertar o cinto; vamos entrar numa zona de fortíssima turbulência.

Como faltava ainda alguns minutos para darem de encontro ao mau tempo, Nelson decide ir e dar o alerta pessoalmente. Danielle, como sempre, estava estudando. Assentada numa das poltronas laterais e com uma porção de livros e cadernos espalhados numa mesa, à sua frente, ela apenas ergue os olhos para ver quem vinha e em seguida volta à sua leitura. Uma visita de Nelson, durante um voo, não constituía novidade alguma para ela.

— Parece que a minha linda terá que abandonar os estudos por alguns instantes… (diz Nelson enquanto se aproxima) Estamos pra entrar numa zona de forte turbulência… Melhor se preparar.

— Olha aqui, Nelson; pra começar, eu não sou “a tua linda”; e depois, nem linda exatamente eu sou. Eu sei que não sou feia de assustar; mas, “linda?!” (Danielle sorri com deboche) Ninguém nunca te disse que com essa tua cantada de hipocrisia você não irá conquistar nenhuma garota… pelo menos, não as que sejam sérias? A não ser que ela se ache mesmo linda, é claro (diz Danielle sorrindo enquanto guardava os livros).

Nelson fica imóvel, em silêncio e introspecção, por um instante, e depois lhe diz num tom grave e pausado.

— Eu gosto muito de brincar com você, Danielle; porque você é, de fato, uma garota muito jóia… Mas, na verdade, eu nem deveria fazer isso, sabia? (pausa) Ele poderia não gostar e… Bom, deixa pra lá.

— Não estou te entendendo (diz Danielle num tom de interrogação).

— Não, nada não (ainda num tom reflexivo, enquanto se vira e se afasta em direção à cabina).

— Ah, tá! Você deve estar pensando que eu vou ficar aqui, “morrendo de curiosidade!” ou, te perguntar o porquê dessa tua encenação, certo? (diz ela zombando)

— Não, não; esquece. Eu falei demais; só isso. Acontece que quando eu estou triste, ou preocupado com alguém, eu acabo pensando alto… mas, não é nada não (se afasta, entra na cabina e fecha a porta).

O mau tempo foi “tremendo!” e teve uma duração de uns vinte minutos. Assim que tudo volta à calma, Nelson anuncia a Danielle ‒ agora pelo sistema de comunicação interna, que a situação já havia voltado ao normal e lhe deseja bons estudos. Não levou nem cinco minutos e Danielle bate à porta da cabina.

— Nelson, você poderia vir aqui um instante?

— Claro, sem dúvida! (Nelson tem que se esforçar para conter uma gostosa gargalhada!) Posso, comandante? (pergunta a Carlos que apenas faz um aceno dizendo que sim)

— Vem cá; (diz Danielle, fazendo um aceno para que ele se assente ao seu lado). Que história é essa que você começou a encenar aquela hora e que não terminou; hã? Diz aí! Eu quero ver o fim desse teu drama! (Danielle sorria, mas com certa irritação)

Nelson não era bonito, mas era um tipo simpático, muito brincalhão e agradável. Nesse momento, ele mal conseguia fazer o ar sério e introspectivo que a cena exigia. Olhando sempre para baixo e evitando a todo custo o olho-no-olho com Danielle, ele diz:

— Está bem. Não vai ter jeito mesmo, não é? Mas eu ainda insisto em dizer que eu não devia estar aqui te falando sobre isso. Se o Carlos fica sabendo… Eu… Eu nem sei o que ele poderá fazer!

— Nelson, Nelson! Você é mesmo um tremendo de um sacana! Me custa acreditar que você esteja tentando armar uma troça pro Carlos – teu superior! Eu sei o que ele te faria; primeiro ele iria te matar e depois ele te mandaria embora – rua! Só que não vai rolar, Nelson; eu te conheço bem demais pra acreditar em qualquer coisa que você invente.

Nelson, fingindo um grande alívio, se levanta dizendo:

— Então, eu posso ir? Estou liberado?

A essa altura, a curiosidade de Danielle sobre a “armação” de Nelson já era tamanha que ela simplesmente não podia deixar de ouvir o restante da tramóia!

— Hã… não; senta aí e me conta tudinho! Com certeza eu vou chorar de tanto rir!

Nelson costumava representar muito bem as suas “peças”; mas, desta vez, só com muita dificuldade ele consegue se conter e não cair na risada. Voltando a se sentar, ele se prepara para dar um desfecho ao drama.

— Você tem reparado na ansiedade e na irritabilidade do Carlos ultimamente; não tem?

— Não (diz Danielle com um sorriso matreiro estampado em seu rosto). Ele está cansado e querendo tirar umas férias; é isso?

— Hã… Você nem percebeu. Mulheres! E depois, nós é que não notamos o vestido novo, o penteado ou a nova cor do cabelo delas! (diz, indignado e se preparando para se levantar e voltar para a cabina)

— Ou, ou, ou, espera aí! Era só isso?

— Ora, e o que mais deveria eu dizer a uma mulher que não nota sequer a existência, os anseios ou os mais sinceros sentimentos de uma pessoa tão legal, tão especial e que vive há tão poucos metros de distância dela; hã? Me diz!

— Nelson, deixa de graça e diz logo o que você insinuou que tinha a dizer; vamos! Essa tua estória já está me dando nos nervos, sabia?

— Dizer, pra quê? Pra você se divertir? Não senhora; não às custas do meu amigo. Ele é um tipo sisudo, muito capaz e até bastante confiante no trabalho dele, mas, ele é também uma pessoa muito tímida, especialmente no que respeita às mulheres. Ou será que você acha mesmo que ele ainda não se casou, com seus quase trinta anos de idade, porque é um tipo muito feio, desajeitado, incapaz… Hã? Ele não é um sujeito feio, é? (pergunta Nelson com ares de ingenuidade)

— Ai, ai! Você está na profissão errada, Nelson. Você deveria ter feito artes cênicas, em vez de pilotagem; isso sim!

— Eu acho legal a gente brincar, Danielle; eu vivo brincando; você sabe disso. O grande problema é que quando eu falo sério, ninguém acredita. Você não é a primeira pessoa que duvida de mim – quando eu falo sério­. Bom, se me dá licença, eu tenho que retornar ao meu posto.

— Espere aí, Nelson! O que você está me dizendo simplesmente não pode ser uma peça, uma brincadeira… Você está ciente do que está fazendo? Isso não é uma coisa com a qual se possa brincar… Não da maneira como você está apresentando! Isso é verdade? Mesmo, mesmo?

— O que você pensa em fazer, Danielle? (diz Nelson, a essa altura já sinceramente preocupado com o rumo da brincadeira) Se estiver pensando em se divertir, por favor, arrume alguma outra coisa, ou um outro alguém. Se divertir às custas dos sentimentos ou da timidez de uma pessoa honesta e sincera, nunca deu bom resultado. Além do que, você estaria não só brincando com os sentimentos dele, mas, também pondo a minha cabeça a prêmio! Se for se divertir, por favor, não se esqueça disso!

Nelson, muito sério e sem fazer mais qualquer comentário, se levanta e volta ao seu cockpit enquanto que Danielle fica a olhar no vazio e sem saber exatamente em que pensar. Corria-lhe pelo corpo uma estranha sensação de adrenalina e parecia que seu coração estava batendo fora do compasso… Ela sabia que Nelson era um tremendo de um gozador; mas, por alguma razão, ela simplesmente não queria acreditar que isso fosse apenas uma peça. E depois, a maneira firme e tão sentimental com que ele falara… Por várias vezes ela examinou e reexaminou toda a conversa, cada cena e tudo a fazia crer que era fato. Era como se de repente, tudo tivesse ganhado vida e cores, à sua volta, e ela sente um ar de ansiedade, num misto de felicidade, que há muito não sentia…!

— E então? (pergunta Carlos, ao retorno de Nelson) Se é que eu posso te perguntar alguma coisa, naturalmente.

— Claro que pode; a minha vida é um livro aberto – só que escrito em Sânscrito antigo! (diz com um meio sorriso) Você conhece aquela expressão “de saia justa!” pra quando a gente se vê num beco sem saída? É isso aí.

— Uai, e que problema seria esse? (pergunta Carlos intrigado)

— Hum… Você sabe que eu vivo brincando com a Danielle… Aquelas “cantadas”, sem qualquer fundamento; agora, ela me chama lá pra conversarmos e me dá o maior gelo de toda a minha vida! Você sabe; aqueles do tipo “chega pra lá – se manca – presta atenção!” Bom, até que enfrentar isso, exatamente, não me seria um tão grande problema; eu tenho estrutura pra isso. Só que… (uma pausa longa, e um suspiro!)

— Ora vamos, homem! Quem brinca com água tem que estar disposto a se molhar; diz aí, o que é que te aflige!

— Hã… Você já reparou como a Danielle anda irritada comigo e vem me dando o fora, mesmo sabendo que minhas brincadeiras são sempre muito respeitosas e que não passam de meras brincadeiras? E, já reparou também no modo como ela vem olhando pra você? Ela…

— Nelson, (interrompe Carlos) deixa de brincadeiras comigo. Você sabe muito bem que eu estou aqui é pra trabalhar e que eu não aprecio nem um pouco esse teu humor, muitas vezes, inconsequentes!

— Antes fosse humor! (diz Nelson, após uma pausa e sinceramente arrependido da burla sem volta que acabara arranjando)

O restante da viagem transcorreu tudo normal, porém, em quase absoluto silêncio. Nelson se absteve de qualquer comunicação que não fosse a estritamente necessária com o piloto, com a passageira e com o controle de tráfego aéreo. Após os cheques finais de pós voo e o hangaramento da aeronave no aeroporto, Nelson chama Carlos a um canto e diz:

— Bem, normalmente sou eu quem leva a patroazinha pra casa; mas, desta vez não vai dar. Eu te agradeceria muito se você fizesse isso por mim… Pode ser?

Após um aceno afirmativo do amigo…

— Carlos, eu sei que às vezes eu sou um tanto extravagante, nas minhas brincadeiras… Mas eu também tenho um coração, eu tenho sentimentos e eu posso te assegurar de que eu sei “e como sei!” o quanto dói a gente ser ignorado por alguém a quem a gente ama. Eu me preocupo pelo teu bem, é verdade; mas, eu me preocupo muito mais pelo bem dela. O homem, quando quer, ele vai à luta e diz logo tudo o que sente; já a mulher, parece que ela tem que ficar sempre na expectativa… Esperando pra ser notada… Eu, se fosse você, daria a ela a atenção que ela merece. Pode acreditar, meu amigo; você é um sujeito de muita sorte!

Nisso chega Danielle que é prontamente recebida por Carlos, que também se oferece pra carregar-lhe as malas até o carro e pra levá-la até sua casa. Nelson dá um tempo ainda no hangar e, limpando da testa um suor de desconforto, exclama de si para si:

— Ufa! Essa foi por pouco!

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