Dina, Diná, Dinorá…!

1 Dina, Diná, Dinorá (2)
Era tarde de verão e chovia a cântaros! Os relâmpagos, o barulho dos raios e o ribombar dos trovões eram simplesmente assustadores! As fortes lufadas de vento chacoalhavam as copas das árvores com tal violência que fazia lembrar um cão sacudindo raivosamente um trapo em sua boca. Felipe Gaudério, conhecido pelos amigos apenas como Gade, estava ansioso por chegar à casa; mas, depois de uma rápida avaliação da situação, ele prefere esperar por uma trégua da ira atmosférica ainda dentro do carro. Ali, apesar do ar quente, abafado e úmido e dos vidros embaçados e escorrendo água de condensação, ainda era melhor do que tomar aquela chuva fria com o corpo ainda quente da viagem, como estava.

Gade era um jovem de vinte e seis anos que era formado em letras e trabalhava como redator e revisor num expressivo jornal da capital. Era também muito requisitado para fazer traduções de Inglês > Português > Inglês e, sempre que possível, escrevia também contos, crônicas e romances – sempre na esperança de que algum dia ele pudesse lançar um livro e divulgar o seu trabalho como autor literário.

Sem internet, com o seu notebook na bagagem e sem sinal de celular, ele não podia senão aguardar resignadamente o abrandamento da fúria da tempestade e pensar… Nisso, lhe ocorre um pensamento:

— Tudo o que acontece, tem suas razões de ser; agora, por que as tempestades?

E, o que mais lhe chamou à atenção, foi pensar que as “tempestades” acontecem em todo o universo e até em todas as áreas de nossa vida! Elas vão e vem, como ondas naturais, e simplesmente não podem ser evitadas. Talvez seja essa a maneira do Criador provar, exercitar e fortalecer a obra da sua criação…

Tão absorto estava em seus pensamentos que até se espanta quando percebe que a tempestade já havia passado! Apenas uma chuva fina e o respingar das árvores na capota do carro ainda insistiam numa gostosa percussão sinfônica que ia e vinha, ao sabor de um vento suave e gentil.

Gade acabara de sair de férias e alugara, por um mês, aquela casa espaçosa e antiga, não só para descansar da rotina do trabalho, mas, também para trabalhar na finalização de um romance que estava escrevendo sobre “uma jogadora de basquete que sofreu uma lesão muito forte e, no tratamento, acaba se apaixonando pelo seu fisioterapeuta. Em seguida, e por acaso, ela descobre que o seu fisioterapeuta fora ninguém menos do que o menino e a pessoa que ela mais odiou em toda a sua vida! Ele infernizara longos e sofridos anos de sua vida, no caminho para a escola, quando ela era ainda uma criança…”

A casa era de uma construção ao estilo Brasil Colonial, já quase na orla marítima. Era cercada de muitas palmeiras e de árvores centenárias quase totalmente cobertas de musgos e de orquídeas, num emaranhado de cipós que dava gosto de se ver. Havia muitas outras casas aos lados e ao fundo, mas não havia muros. Não dava a impressão de ser uma vila e sim, apenas um aglomerado de casas muito altas, desalinhadas entre si e em meio a um lindíssimo horto florestal.

Gade toma um tempo para apreciar o ar ‒ purificado pela chuva, o horto, as casas, a praia e o mar, que ainda estava revolto e fazendo um ruidoso barulho… como um gigante enfurecido! As ondas do mar quebravam nas pedras da praia e lançavam de si uma espessa bruma – quase uma ressaca! Gade estava já descarregando sua bagagem e tentando não pisar nas inúmeras poças de água que havia por todo lado quando ouve, vindo de uma casa vizinha, uma voz rouca de uma mulher, gritando:

— Dina, Diná, Dinorá…!

O rapaz, que teve sua atenção despertada num repente, pelo chamado, precisou fazer um enorme esforço para não cair na risada! Nesse instante, ele nota que está sendo observado e, ao procurar descobrir quem o estava espiando, ele vê o vulto de três pessoas risonhas e barulhentas que saem detrás de uma moita de arbustos e correm em direção à casa vizinha;

— Três moças, com certeza! (pensa Gade)

A mulher que as chamara parecia não estar muito satisfeita com o andamento das coisas por lá; mas, como Gade não estava nem um pouco interessado nos assuntos da vizinhança, continuou a descarregar o carro e se instalou o mais confortável que pode. Gade vai ao supermercado mais próximo para se abastecer e, ao voltar, encontra as três irmãs sentadas na muretinha da varanda da frente, como que a esperar por ele.

— Oi! (diz uma delas com um largo e belo sorriso) Você é o nosso novo vizinho, não é? Seja bem-vindo! (e se prontifica a ajudar na descarga das compras)

— Oi! (diz ele um tanto tímido e até “assustado!” face às três moças sorridentes, lindas tão idênticas que pareciam ser uma e a mesma pessoa, apenas que vista em três ângulos diferentes!) Meu nome é Felipe Gaudério, mas os amigos me chamam apenas Gade.

— Meu nome é Dina (diz a moça que o ajudava) e estas são as minhas duas irmãs: Diná e Dinorá. É engraçado três irmãs gêmeas e ainda com nomes assim, não é?

— Oh! Não, não! É… Eu diria… É bonito; só isso. Puxa! Os pais de vocês conseguem saber quem é quem?! (diz ele sorrindo e já procurando se descontrair)

— Hum… Bem, nós não somos tão idênticas assim, como pode parecer à primeira vista. Se você prestar bem atenção você verá que eu sou muito mais bonita do que elas (diz Dina rindo muito e já levando uma cotovelada das outras duas).

— Bom, pelo menos podemos economizar palavras; eu digo que você é linda, e, as irmãs já sabem que são também; certo? (diz ele brincando – enquanto fechava o carro e se preparava para entrar em casa)

Após colocar as compras na pia da cozinha, Gade vai para a copa e entrete-se a conversar com duas delas, esquecendo-se da terceira. Gade já estava começando a se sentir à vontade com a ideia de ter as beldades lhe fazendo graça, à sua volta, quando chega a outra, vinda da cozinha e lhe trazendo um cafezinho que acabara de fazer ‒ com o que Gade havia trazido do mercado!

— Espera aí, (diz ele encabulado e apontando para a que trazia o café) você é a Dina, a Diná, ou a Dinorá?

— Hum… Nós já nos apresentamos, seu moço; quem você acha que eu sou; hã? (diz ela um pouco séria enquanto as outras duas se divertiam a valer)

— Hã… Você… É a mais bonita?

— Certíssimo, meu jovem! Parabéns! Dina, às suas ordens! (diz ela fazendo-lhe uma mesura)

A brincadeira estava de fato divertida e Gade não poderia estar mais satisfeito com a escolha do lugar para tirar as suas férias! Dina ia dizer mais alguma coisa, quando de repente ouvem a mãe chamar:

— Dina, Diná, Dinorá…!

Dina abandona o que ia dizer e se prepara para sair, enquanto que as duas irmãs saem correndo para atender à mãe.

— Existe algo de errado… Com a mãe de vocês? Quero dizer… Ela se ressente de ficar sozinha, ou algo assim?

— É… Carência; eu acho. Meus pais sofreram um acidente carro, há mais de ano. Ele veio a falecer e ela escapou, mas acabou perdendo a perna esquerda – do joelho pra baixo. Recentemente ela colocou uma perna mecânica, mas ainda não consegue ter confiança nem na perna, pra andar, e nem em ficar sozinha; ela se desespera e começa a nos chamar… Estamos esperando que essa fobia passe, com o tempo. Enquanto isso, o jeito é não dar a ela muitos motivos pra pânico.

— Oh! Eu sinto muito, Dina; de verdade…!

— Obrigada! Mas agora já estamos quase conformadas; ou, nos acostumando ao “novo sistema”; não tem outro jeito, não é?

— Dina… O que você acha da ideia de fazermos um almoço aqui, em casa, e de almoçarmos todos juntos um dia desses?

— É uma ótima ideia! Eu vou conversar com a minha mãe sobre isso e depois te dou uma resposta; pode ser? (diz ela, já saindo)

— Claro, claro!

— Uau! (pensa Gade consigo mesmo) Que coisa! Vou ter que aproveitar e muito bem! Férias assim a gente não tira duas em toda uma existência!

Gade liga o seu notebook e tenta escrever alguma coisa, mas simplesmente não consegue; são tantas as ideias que se atropelam em sua mente que ele se sente aturdido e não consegue se concentrar em nenhuma delas. Por um lado ele sabe que gostou da Dina; mas, por outro, qualquer uma das três serviria… São todas exatamente iguais! Isso é loucura!

— Tempestades… Tempestades! (diz Gade) Demora tanto pra chover na minha horta e quando chove, chove tudo de uma vez?! (diz ele desorientado) Bom, que chova! E… que chova o mês todinho! (e adormeceu)

No dia seguinte, estava já terminando o café da manhã quando chega uma das moças para lhe dizer um oi.

— Espera, você é… a Dinorá?

— Não.

— Então você é… a Diná!

— Eu pareço mesmo com ela? (diz, fingindo estar ofendida)

— Claro que parece! Pra mim, é como caneta BIC; são todas iguaizinhas! (diz o rapaz em tom de desespero) Mas, tudo bem; bom dia, Dina! E, antes que eu me atrapalhe mais uma vez, vamos combinar uma coisa; sempre que for você, me faz um aceno qualquer com a mão esquerda; certo?

— Combinado. (diz ela rindo e já ensaiando alguma coisa) Minha mãe diz que aceita o convite pra almoçarmos juntos, mas, com uma condição; que o almoço seja lá em casa e pode ser para amanhã; tudo bem pra você?

É claro que para Gade estava tudo bem; na verdade, estava era ótimo! No dia seguinte, tratou de ir ao mercado logo cedo e procurou por algo que pudesse levar, como cortesia, e acabou escolhendo um belo ramalhete que acompanhava quatro flores: Uma rosa vermelha – maior, e três rosas menores, cor-de-rosa e idênticas, e também um lindo vaso de cerâmica, onde as pudessem colocar.

— Por certo agradará (disse, por fim, contente).

Segurando com a mão esquerda o vaso de flores, às costas, ele bate à porta da sala.

Toc, toc, toc!

Ouve-se vozes abafadas e um leve reboliço lá dentro e logo uma das moças corre a abrir a porta e o convida a entrar. Como não houve nenhum sinal específico, com a mão esquerda, ele diz:

— Bom dia! Diná, ou Dinorá?

— Bom dia, Gade! Vamos entrando… Com qual das três você deseja falar? (disse ela rindo e provocando-o)

— Deixa de graça, menina! (diz a mãe, que vinha chegando) Bom dia, Gade! Tudo bem com você? Vamos, assente-se, fique à vontade.

Nisso chegam as outras duas, também curiosas para ver o que ele ainda mantinha, oculto, às costas. Gade apresenta à mãe o vaso com o ramalhete e as quatro rosas, com o que todas ficam encantadas! A mãe, após um instante de apreciação, diz:

— É tudo muito lindo, Gade! Obrigada! Hei…! Essa rosa vermelha parece ter algo a ver comigo, não? (diz ela sorrindo, como quem acaba de descobrir uma charada)

— Foi essa a razão pra que ela fosse maior e assim tão especial, senhora…

— Édina, filho. (diz ela se apresentando) Hum… Você é um menino mesmo inteligente, espirituoso, sensível e sabe como agradar. E, ao que parece, as três rosas cor-de-rosa são iguais e… Bom, meninas, acho que todas devemos dizer um muito obrigado ao Gade! Todas estamos aqui lembradas e lindamente representadas! (disse sorrindo gostoso)

Dina chega, fazendo o sinal combinado com a mão esquerda ‒ para se identificar, lhe dá um abraço de agradecimento e o convida para se assentar no sofá da sala. Depois de quase meia hora conversando com Dina, eles são convidados a se assentarem à mesa na copa – o almoço estava pronto para ser servido. Era um ambiente de festa e todos tinham motivos de sobra para conversarem, rirem e para fazerem piadas uns com os outros. Assim que deu uma trégua, no movimento, Gade solicita de dona Édina a permissão para namorar Dina, sua filha. A reunião, que já estava alvoroçada, simplesmente entrou em ebulição! Só após um grande esforço de dona Édina é que o pessoal se aquietou para ouvir o que a mãe tinha a dizer.

— Gade, meu rapaz; todas sabemos quem é você, quando o vemos por aí; mas, será que você sabe quem é Dina, quando minhas filhas aparecem juntas? Veja bem; eu posso permitir o namoro de vocês e até gostaria de fazê-lo; mas, eu nunca permitiria uma balbúrdia… Você me entende? Por exemplo, você poderia me dizer quem é a Dina, nesse exato momento?

— É simples, dona Édina; a Dina é a que está assentada aqui, ao meu lado.

— Pois então, prove!

Gade fica um tanto perturbado; ele simplesmente não contava com essa jogada de dona Édina. Depois de pensar um pouco, ele diz:

— Muito simples; (mostrando-se confiante) é só perguntar. Quem de vocês é a Dina?

As outras duas, que estavam sentadas à sua frente, levantaram bem alto o braço direito e gritaram:

— Eu, eu sou a Dina! Eu sou a Dina!

Enquanto que Dina, que estava ao seu lado, levantou levemente a mão esquerda e disse, num tom ameno de voz:

— Eu sou a Dina, Gade.

Mas Dinorá, que era muito viva e esperta, não deixou por menos; levantou levemente a mão esquerda e fez um sinal exatamente idêntico ao que Dina havia feito e diz, num tom bem comedido de voz:

— Deixemos de brincadeira, Gade; eu sou a Dina.

Nesse momento, quando Gade já começava a calcular a extensão da sua derrota, Dina, ao seu lado, olha pra ele diz:

— É, parece que vamos ter que trocar a nossa senha, querido… Acabamos de ser rackeados!

— Nem sempre eu consigo prever ou pensar em tudo, meu anjo; (diz Gade muito feliz e agora confiante) mas, para essa “tempestade de beldades” eu já me preparei.

O rapaz enfia a mão no bolso e tira, cuidadosamente, uma caixinha azul camurça, abre e a entrega a Dina. Um lindíssimo anel de noivado! Todas ficam pasmas…!

— Ah…! Isso não é justo! (diz Dina colocando o anel no dedo anular da mão direita) Eu uso um lindíssimo e também caríssimo anel de brilhante e você não usa nada…?!

— Oh, não se preocupe, querida; meus irmãos já são todos casados; e depois, eles nem se parecem comigo!

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