Da. Leninha e seu troféu… em pessoa!

3 Da Leninha e seu troféu Em pessoa

Dona Leninha era uma viúva de uns setenta e cinco anos de idade, mas era jovial de espírito e por onde quer que fosse estava sempre sorrindo e de muito bom humor. Era quase negra, baixinha e magra, mas era visivelmente forte e saudável. Era uma figura muito dinâmica e era continuamente vista fazendo compras de mercado, na feira, nas lojas, nas repartições públicas, ou apenas passeando para conversar com algumas de suas muitas amigas. Até parecia que ela estava sempre em todos os lugares!

Era sexta-feira e o relógio da Matriz já havia batido cinco e meia da tarde quando ela percebe que o seu gás acabou. Rapidamente ela liga para o fornecedor, que ficava a algumas quadras de sua casa, tira o botijão vazio do fogão e o rola até próximo à porta da sala. Já ia se ocupar de alguma outra atividade quando a campainha toca. Cuidadosa, como sempre, ela abre a porta mas sem tirar a correntinha de segurança que mantinha a porta entreaberta.

— Quem é? (pergunta ela)

— Entrega (diz o rapaz, que estava muito suado e cansado).

— Oh, puxa! Desta vez vocês entregaram mesmo rapidinho! Acho que vou pedir o gás sempre no final das sextas-feiras! (diz a velhinha se divertindo muito)

Mal ela destrava a porta e o rapaz entra como um tufão, tropeçando no botijão vazio que estava bem no meio do caminho. Ele não chega a cair. Tão logo se recupera ele se volta e tranca a porta com violência e, já apontando uma pistola para a cabeça de dona Leninha, diz apavorado, rápido e quase berrando!

— Existe mais alguém com a senhora no apartamento? Em quantos vocês são? A senhora está esperando por alguém…?

Dona Leninha, que não era lá do tipo que se assustava muito facilmente, fica paralisada por alguns instantes… mas, logo se recupera e diz com voz autoritária:

— Quem é você, rapaz? Quem você pensa que é pra ir invadindo meu apartamento assim desse jeito? E faça-me o favor de apontar essa arma pra outra direção. Você não sabe que essa coisa pode disparar por acidente?

E, abrindo a porta, lhe ordena:

— Saia já do meu apartamento! Agora, vamos! Vamos!

O rapaz, que também não estava ali pra brincadeiras, fecha de novo a porta e a tranca mais uma vez e, estabanado, empurra dona Leninha que cai, muito a contragosto, sentada no sofá da sala.

— Olha aqui, dona; escuta bem o que eu estou te dizendo; a senhora vai receber o gás como se nada estivesse acontecendo, entendeu? Ou então eu…

— Ou então o que, meu filho? (interrompe ela impaciente) Você acha mesmo que eu vou ficar com “medinho” de você, ou desta tua arma de covardia? Ora vamos! Se está com vontade de me ferir, ou de me matar, que faça isso logo! Não perca o seu tempo… e nem o meu; ora essa!

Nisso a campainha toca mais uma vez e, quando o rapaz se dá conta, a velhinha já estava abrindo a porta, com o dinheiro do gás em sua mão.

— Ah… essa não… mais um suado e cansado! Como se um só já não me bastasse! Vai querer entrar também, ou vai me dizer que só veio pra me trazer o gás?

O entregador, sem entender nada do que se passava, diz que é o gás, troca de botijão, recebe o dinheiro e desaparece correndo escada abaixo.

— E você…? (diz ela ainda muito zangada) Vai sair, ou está pensando em ficar pro jantar?

O rapaz, mais uma vez abobalhado, quando se dá por consciente a velhinha já havia fechado e trancado a porta e agora lhe falava acenando muito com as mãos.

— Ora, vamos, vamos! Não fique aí parado! Pegue logo esse botijão e coloque-o no fogão pra mim!

O rapaz, que a essa altura já não sabia mais o que dizer, ou fazer, havia guardado a arma às costas, entre o cinto e a calça e, não querendo arranjar mais confusão com a estranha velhinha, mesmo indisposto ele pega o botijão e lentamente se dirige para a cozinha. Em pé, ao seu lado, ela espera calada até que ele termine de ligar o botijão. No momento em que ele ia se levantar, num gesto ágil e certeiro a velhinha tira do cinto do rapaz o revólver e o arremessa para fora e, em seguida, corre para a mureta da área de serviços e aprecia com gosto a queda do objeto na área de jardins do prédio. O rapaz, totalmente encolerizado e quase que fora de si, a agarra com violência e grita:

— O que foi que você fez? Sua velha idiota! Estúpida! O que você fez?!

— Ora, filho; (diz ela calmamente) se você quiser mesmo me matar, você não irá precisar de uma arma de fogo. Uma faca faria “e muito bem!” o serviço. Você pode usar uma peixeira ou alguma das facas de minha cozinha ‒ eu não ligo. E agora, se me dá licença, ponha-me no chão que eu preciso preparar o jantar; eu não gosto nem um pouquinho de atrasar o meu jantar.

— Quantas pessoas moram aqui com a senhora? (pergunta ele ainda falando alto, mas, tentando se controlar)

— Eu e Jesus. (diz ela calmamente enquanto pega uma panela e os ingredientes para fazer o seu saboroso caldo goiano)

— Quem é Jesus? Seu marido? Seu filho…?

— Não…! (diz ela sorrindo) Jesus é o meu Deus! Você não O conhece? É, não deve mesmo conhecer! (diz ela quase de si para si)

Após uma breve pausa, dona Leninha lhe pergunta:

— Agora, o que foi que você fez de tão feio assim pra entrar aqui tão apavorado desse jeito, como se toda a polícia da cidade estivesse atrás de você, rapaz? Ou será que essa é a sua maneira preferida de tentar assustar “velhinhas indefesas”?

O rapaz não estava exatamente sujo ou tão mal vestido, mas com certeza precisava urgentemente de um bom banho! A essa altura, já bem mais calmo e assentado numa cadeira da cozinha, cabisbaixo ele diz, quase que em tom de confissão:

— Eu… eu não tenho conseguido trabalho já há alguns dias e… eu tentei assaltar uma loja… mas, deu tudo errado e eu tive que sair correndo. A primeira porta de prédio que eu encontrei eu entrei e subi alguns andares antes de tentar a invasão de algum apartamento. E… por sorte, eu… (nesse ponto ele prefere interromper a narrativa)

Dona Leninha, que estava levando a panela ao fogo, se dá por satisfeita com a explanação do rapaz e diz:

— Melhor você tomar um bom banho antes do jantar, rapaz; você está terrível! Vai, entra no banheiro que eu vou providenciar alguma roupa do meu finado marido; deverão te servir; ele também era alto e magro, assim como você.

— Só se a senhora me prometer que, enquanto eu estiver no banho, a senhora não irá telefonar pra polícia e me entregar.

— Hum… Filho, eu prometo, mas sob duas condições.

— Quais?

— Bom, eu posso fazer ainda melhor; eu não te entrego e ainda te dou refúgio até segunda-feira, contanto que você vá comigo à igreja no domingo e, na segunda logo de manhã, você deverá sair e procurar um emprego; qualquer tipo de trabalho, contanto que seja honesto e decente; hã?

— A senhora não entende; a senhora pensa que é fácil assim. De certo a senhora acha que eu tenho uma ficha limpa na polícia, que sou inocente como uma criança e que eu só estou assim, quebrado, porque eu gosto!

— Você não tem alternativa, rapaz. É pegar ou largar.

— E se eu não concordar, o que acontece?

— Eu te entrego pra a polícia a hora que eu quiser. Simples assim.

— Eu posso te amarrar, amordaçar e…

— Não pode não (interrompe dona Leninha).

— Claro que posso! O que a senhora poderia fazer pra me impedir…?

— Ora, rapaz, não seja bobinho! Meu filho, que é mais alto e bem mais forte do que você é coronel no batalhão de choque da polícia e mora exatamente no apartamento abaixo do meu. Antes que você consiga por as mãos em mim, eu já terei feito aqui o meu “sapateado” e num instante o apartamento será invadido por pelo menos meia dúzia de pessoas querendo saber o que se passa. E depois, esse meu filho não passa um só dia sem vir aqui pra me dar um abraço e um beijo de boa noite. E… por falar nisso, que horas são?

Após o banho do rapaz e uma boa janta, a campainha toca mais uma vez e dona Leninha corre a atender. Era Moisés, seu filho, em sua habitual visita de boa noite. Ele era um jovem senhor de uns quarenta anos, estava à paisana, moreno bem escuro, alto, forte, musculoso e com cara de pouquíssimos amigos. Tinha uma voz forte, grave e imponente, mas não era de muito falar. Era exatamente o oposto de dona Leninha que, sempre sorridente e animada “como se tivesse vencido um importante torneio!” lhe falava sobre o incidente da tarde e sobre o rapaz que mantinha sob sua custódia, “como se este fosse o seu vivo troféu!”

— Qual o seu nome, rapaz? (lhe pergunta Moisés)

— José Gomes Atahide, senhor.

— Tem algum documento?

José lhe apresenta a carteira de motorista e Moisés liga para a Central de Polícia para inquirir sobre os possíveis antecedentes criminais do rapaz. A relação dos seus delitos até não era lá muito longa; mas, a feição de Moisés, que nunca fora tão boa, ia piorando com o andamento do relatório. Como não foi encontrado nenhum crime grave, apenas uma série de contravenções e também, como o rapaz estava sob custódia de dona Leninha – que não iria abrir mão do seu “projeto de recuperação”, ele bem sabia disso, Moisés resolve dar a José uma segunda chance.

— Me deixa ver essa mochila que você traz aí (ordena ele ao rapaz).

Após uma revista corporal e uma minuciosa vistoria na mochila do rapaz, ele nada encontra senão apenas algumas roupas, objetos de uso pessoal e um pedaço de arame duro ‒ que provavelmente lhe servia para improvisar uma gazua e abrir fechaduras ou coisas do tipo; nada muito sério.

— José, você deve saber que eu tenho autoridade e também motivos de sobra pra te prender; certo? Mas, se você quiser uma segunda chance eu ainda posso te conceder isso.

— Sim, eu quero! (diz José aliviado)

— Então faz o seguinte: Corta esse cabelo, melhora a tua aparência e, só como sugestão, comeca a usar o nome de Atahide; seja, de hoje em diante, um novo homem! Você pode pedir emprego onde você quiser; e, se te pedirem o negativo de antecedentes criminais, é só você me procurar que eu te libero isso pessoalmente. Só que tem um porém, Atahide; se você for pego, ainda que numa simples contravenção, fique sabendo que você estará de fato enroscado! Estamos combinados? (disse, num claro tom de ameaça)

— Doutor; eu tenho muito o que lhe agradecer, especialmente por não estar me prendendo por essa invasão de domicílio; mas, o meu caso não é assim tão simples, como pode parecer à primeira vista. Eu não tenho uma residência, não tenho parentes e não tenho recursos ou como me sustentar enquanto procuro um trabalho. E depois, ainda que eu arrumasse um trabalho agora mesmo, de que maneira eu iria me sustentar até receber o meu primeiro pagamento? Eu estou quebrado! Doutor, eu posso até dormir em qualquer lugar, como já tem acontecido e eu não me queixo disso; mas, na hora de se alimentar, ou a gente tem o que comer, ou a gente se acaba! Se o senhor vai me prender e me ferrar por qualquer delito, ainda que pequeno… então, que alternativa me resta?!

Moisés, que não contava com esse discurso, fica calado por alguns instantes e em seguida pergunta:

— O que é feito dos teus pais e parentes, Atahide?

— Do meu pai eu nunca tive notícia e a minha mãe morreu num acidente de carro quando eu tinha onze anos. Se tenho algum parente eu não sei dizer; devo ter, mas, eu não sei onde estariam.

— Que tipo de trabalho você faz, ou, estaria disposto a fazer?

— Doutor, eu tenho o segundo grau completo e o que eu gostaria mesmo era de conseguir algum trabalho que me permitisse estudar e prestar algum concurso… o senhor sabe, melhorar um pouco na vida. Mas, um trabalho de motorista, tratorista ou ajudante de qualquer coisa; eu não só aceitaria, mas ainda lhe agradeceria muito se o senhor me ajudasse a conseguir isso!

— Hum… Eu vou ver o que posso fazer.

Moisés pega o telefone…

— O que você vai fazer, meu filho? (pergunta dona Leninha)

— Eu preciso arrumar um abrigo pro rapaz; não preciso? (diz Moisés muito mal humorado)

— E você vai mesmo desrespeitar o meu “asilo político” e a minha palavra já empenhada com o Atahide…?

— A senhora simplesmente não pode ficar aqui com um rapaz que a gente não conhece. Ele…

— Olha, meu filho, (interrompe ela impaciente, como sempre) eu sei que você é uma autoridade na cidade e que você também é o representante do teu pai aqui, na falta dele; mas, esta ainda é a minha casa. Eu dei asilo ao rapaz e ele está sob minha custódia. (disse com firmeza)

Moisés, que não queria se indispor com a mãe, na frente do rapaz, diz:

— Então… Eu vou mandar a Milla pra ficar aqui com a senhora; tudo bem?

— Será um prazer, meu filho. (diz dona Leninha sorrindo gostoso)

José fica super animado com a ideia de conhecer a tal Milla. Provavelmente seria uma neta de dona Leninha, ou, quem sabe, uma das empregadas do Dr. Moisés…!

Nem meia hora depois chega Milla. Uma policial da tropa de choque, quase negra, enorme, musculosa, toda armada e aparamentada ‒ como se estivesse para fazer a segurança do presidente da república! Séria, de semblante duro e sem cumprimentar ninguém, ela entra na sala e se posta ao lado da porta, imóvel, como um verdadeiro “soldadinho de chumbo”.

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