Imitação, ou o próprio?

14 Charlie Chaplin - imitação ou o próprio

Conta-se que um programa de auditório estava selecionando “a melhor imitação” do já famoso comediante Charlie Chaplin. Homens, mulheres e até crianças! estavam se apresentando. Sabedor do caso, Chaplin resolveu se munir de um disfarce e se apresentar também. Após várias eliminatórias, o próprio Charlie Chaplin acabou em segundo lugar; ou seja; houve quem o imitasse melhor do que ele mesmo.

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João, Julião, Sebastião…!

13 João Julião Sebastião

— Sim, senhora; João é meu irmão, Julião é meu primo e Sebastião é meu amigo. Eu sei que todos eles são “meus” alguma coisa, mas eu não tive nada a ver com a arte deles não! (diz Pedrinho, o menorzinho dos meninos e, de longe! o mais traquina e tagarela!)

Eu sabia, sim, o que eles iam fazer e eu até fui junto com eles, mas não fui eu quem puxou o prato. Bem… eu pus a minha mão, mas foi bem de levezinho, assim! A mão deles é muito maior do que a minha! Eles é que derrubaram a torta!

É, eu também saí correndo, mas foi por medo da senhora e não porque eu derrubei tudo no chão… Bom, na verdade, nem fui eu quem derrubou; eu só estava lá quando eles fizeram isso. Aí eu peguei uns bocadinhos da cobertura e uma mãozinha de bolo; mas a minha mão é pequenininha, olha!

Pra ser bem sincero, eu acho que a senhora devia mesmo era dar um castigo bem grande pro Petrúquio. Não fosse eu tirar um pouquinho dele, pra mim, e ele teria comido tudo sozinho! Imagina!

Está certo que o Petrúquio é “meu”, também; mas, que culpa tenho eu se ele apronta das suas? E depois, eu nem gosto muito dele. A senhora acredita que um dia desses o danadinho até pegou uma pera daquelas que a senhora disse que não era pra gente mexer porque a senhora ia fazer um prato especial pro tio Fortunato? Êta Petrúquio! Cachorrinho mesmo sem educação, viu!

Tia Bia, por que a senhora não esquece tudo o que aconteceu e a gente começa tudo de novo, hã? Eu ajudo a senhora e rapidinho a gente faz uma outra torta, só que agora a gente podia fazer uma torta de limão; essa é a minha preferida! Que tal, hein?!

E dessa vez, eu vou ficar vigiando assim, ó! E eu prometo pra senhora que eu não vou deixar ninguém nem chegar perto do prato.

E eu até posso…

— Ou, ou, ou! (interrompe tia Rita já apavorada!) Espera um pouquinho aí! E quanto a você João, Julião e Sebastião; vocês também comeram da torta espatifada no chão, ou não?

— Sabe, tia Rita, (se adianta Pedrinho mais uma vez) eu acho que melhor mesmo seria a gente esquecer completamente esse desastre. Desse jeito: “O que passou, passou!” como o tio Celso costuma dizer: “Vida nova!” Nada de…

— Espera aí, Pedrinho… (interrompe tia Rita) Eu acho que você tem toda a razão. Então, pra selarmos o problema e esquecer mesmo de vez que você mexeu onde não devia, derrubou minha torta, mentiu pra mim, pôs a culpa em seus coleguinhas, etc. e etc., que tal você ficar de castigo – fora da minha cozinha por hoje, amanhã e depois; hã?

Assim, quem sabe, eu vou ter a tranquilidade de que preciso para fazer uma outra torta  de maçã – igualzinha àquela que você comeu tudo sozinho; certo?

Pertinho… de você

12 Pertinho de você

Se tu estás perto, bem perto,
perto ainda pode chegar!
Tudo o que não fica perto,
muito longe pode estar;
eu te quero bem pertinho,
para de perto te amar!

Se um dia eu for pra longe,
quero meu bem te levar;
te levando, estarei perto,
perto sempre quero estar!
Muito longe esteja a dor,
que não a tenhas que provar!

Perto sim esteja o amor,
que saibamos desfrutar!
Enquanto os anos passam,
aparências a transformar,
saiba sempre meu amor,
inda assim hei de te amar!

Teu amor tem uma graça,
um encanto peculiar!
Comparável às lindas flores,
com seu óleo a perfumar,
muito embora seus espinhos,
vale a pena cultivar!

Eu de um lado, tu do outro… 

9 Eu de um lado Tu do outro

O pessoal estava simplesmente barulhento! Todos se abraçavam, riam, se cumprimentavam, conversavam…! A julgar pela fisionomia sorridente de praticamente todos os presentes, o momento era só alegria! Mas, como quase tudo na vida, nem sempre as coisas são exatamente o que aparentam ser. Por dentro, no mais íntimo dos corações, havia muita coisa não resolvida e que não correspondia, absolutamente, com aquela aparente felicidade.

 

O grupo era composto de pouco mais de vinte pessoas, na maioria jovens adultos; ou seja, alguém que já passou dos trinta e que ainda não se casou. Éder odiava essa etiqueta, mas, agradecia pelo fato de a etiqueta ainda incluir a palavra “jovem”. O fato de a pessoa já ter certa idade, e ainda não ter se acertado com o seu par, isso acaba se tornando um verdadeiro estigma… E como isso dói! Éder era bancário, tinha seu próprio apartamento, um bom carro e já se considerava estabilizado na vida; mas, nada disso parecia fazer qualquer sentido, se ele não tinha alguém com quem compartilhar suas vitórias, seus momentos de dificuldades, ou, até mesmo, o fruto do seu trabalho.

 

As pessoas reagem de formas diferentes, quando expostas à mesma experiência. Algumas até conseguem rir e se divertir, enquanto que outras, não conseguem sequer esconder o gosto amargo da própria insatisfação e infelicidade. Assim como Éder, havia, naquele grupo, outras pessoas que também partilhavam desse mesmo sentimento. Melissa, uma bem sucedida lojista de roupas femininas, era muito introvertida e também não conseguia se sentir muito à vontade em meio a tanto barulho e movimento; por isso, sempre que possível, ela procurava se afastar do tumulto e aparentar alguma tranquilidade – para não destoar tanto dos demais. Ela não via lá muita graça em festas de aniversários e muito menos em Réveillons; mas, convidada por uma amiga, ela não pode senão concordar em dar uma passadinha. Essas festas, para ela, eram sempre uma terrível lembrança de que “mais um ano!” havia se passado. Mas ela estava fazendo o possível para disfarçar esse sentimento e, às vezes, até entrava no cordão do “oba, oba!” para contentar os eufóricos amigos.

 

Como faltava ainda um tempo para a badalada da meia-noite – o Ano Novo, alguém teve a idéia de agitar “ainda mais!” a reunião e propôs que cada recitasse um poema, uma estrofe, ou, que fosse um verso, de algum poema que soubesse. Para alguns isso foi moleza e houve quem declamasse poemas inteiros, como!

 

“O coração está sendo julgado:

A Consciência é juiz, assiste o Amor,

E, sendo o Ódio elevado a promotor,

A Constância defende o réu culpado.

— Condenai-o, juiz, por ter roubado um beijo! (eis que assevera o acusador)

A constância repele:

— Ouvi, senhor; dar um beijo a quem se ama, é pecado?

Um silêncio se faz na sala imensa…

E o juiz, muito calmo e sabiamente,

Olha para o réu e profere a sentença:

— Pelo crime de amor, que praticou, eu condeno este réu, tão inclemente, a devolver o beijo que roubou!” __ de Zé Alves

 

Mas, a maioria declamou apenas uma estrofe, como:

“Diferente da paixão,

O amor é um sentimento;

Está acima da razão, e,

Do passar do tempo.” __ de Roberto Carlos

Já alguns, com grande dificuldade, procuraram recitar ao menos um verso…

“Lutar pelo amor, é bom; mas, alcançá-lo sem ter que lutar, é melhor!”

__ de Shakespeare

“Todas as paixões nos levam a cometer erros; mas, o amor, nos faz cometer os mais ridículos!” __ de François La Rochefoucould

Claro, também não faltou quem recitasse a manjadíssima trovinha:

“Batatinha quando nasce,

Esparrama pelo chão;

Nenezinho quando dorme,

Põe a mão no coração!” __ de autor desconhecido

Ao que Rubião, que era sempre do contrário, emendou logo em seguida:

“Bata-nasce quando tinha,

Espa-chama pelo rão;

Nene-dorme quando zinho,

Põe a ção no cora-mão!” _ invenção do próprio Rubião

Melissa, que conseguiu ir se esquivando até ao fim, chegou uma hora em que não deu mais – só faltava ela!

— Hã… (diz ela muito sem jeito) A única coisa de que consigo me lembrar é uma estrofe de um poeminha que li na minha infância e que é mais ou menos assim:

“Eu de um lado, tu do outro…

O rio fica no meio.

Tu, de lá, dá um suspiro…

Eu, de cá, um suspiro e meio!” __ de autor desconhecido

Alguns fizeram galhofa, outros acharam “fofinho!” mas, o que importava mesmo, pelo menos para Melissa, é que a turma deu a tarefa por concluída e ela pode se ver livre da pressão de todos os olhos fitos nela. E, aproveitando a deixa, ela foi se esgueirando e saiu para a varanda, onde havia um banco de madeira e uma bela vista para o jardim, por sinal, muito lindo, bem cuidado e iluminado! Ela mal acaba de se assentar e chega Éder, que se assenta ao lado dela. Como ela sabia que Éder era do tipo que falava pouco e ainda muito compassado, Melissa resolve iniciar a conversa:

— Você também está fugindo ao movimento lá de dentro. (disse, quase que interrogando)

— Hum… É… também. (diz Éder, com a calma que lhe era peculiar) Mas, eu vim mesmo foi pra te dizer que eu não gostei do teu poema. (pausa longa)

— Bem, o poema não é meu; na verdade isso é apenas o que eu consegui me lembrar dele. (diz Melissa tentando se desculpar)

— É, você já disse. (pausa) Melissa, você acredita que a gente possa corrigir, ou, modificar, alguma coisa com a qual a gente não concorde muito?

— Sim, claro que sim! (diz Melissa sem saber exatamente aonde o rapaz queria chegar)

— Então… (mais uma pausa) Eu gostaria de propor uma mudança no teu poema. E se a gente, eu quero dizer, eu e você, o declamássemos assim:

“Eu de um lado, tu do outro…

O amor fica no meio;

Tu, de lá, me dá um beijo,

Eu, de cá, um beijo e meio!” _ eu e você

Que tal; hã? (diz Éder, já colocando o braço sobre os ombros de Melissa…)

A má sorte do gaudério…

11 A má sorte do gaudério

Já havia parado de chover; só uma garoa fina continuava a cair sobre as sombrinhas, chapéus coco e casacos de feltro já molhados pela insistência do mau tempo. As senhoras, elegantes, com suas roupagens multicoloridas e rendadas faziam um belo contraste com os homens, quase todos de preto e a maioria usando bengalas de madeira escura – algumas delas enfeitadas com madrepérolas. Como a temperatura havia caído um pouco e também já eram quase três da tarde – hora do meu chá com torradas, resolvi entrar num dos bares da movimentada avenida e ver que opções teria.

Na entrada, um verdadeiro aglomerado de gente, acabei tropeçando em algo e não fosse a pronta gentileza de um cavalheiro à minha frente, que me segurou com firmeza, e eu teria ido ao chão! Assim que recobrei o equilíbrio e me recompus eu procurei o cavalheiro para lhe agradecer, mas o mesmo já havia desaparecido por entre a pequena multidão; de maneira que fui direto ao balcão e pedi por um café sem açúcar, com um pouco de leite e um biscoito de manteiga. Estava ali distraído, folheando O Diário da cidade, quando dou conta de que o atendente do bar me perguntava alguma coisa:

— Deseja mais alguma coisa, senhor?

— Hã? A… Não, obrigado.

Achei curiosíssima a pronúncia e também a fina educação do atendente; há tempos que não apreciava algo assim; essas viagens através do tempo às vezes nos surpreendem! Tanto me entretí com o noticiário, com a sua estranha qualidade de impressão, remoto vernáculo e “arcaica ortografia!”, que nem vi o tempo passar.

O burburinho, a agitação e o adocicado cheiro de gente molhada no bar já havia cessado e só restavam alguns clientes que estavam jogando cartas, nas mesas mais ao fundo, e também dois senhores, muito bem vestidos, de uns sessenta anos de idade, que estavam jogando xadrez numa mesa encostada à parede lateral do bar. Aproximei-me bem de vagar e após apreciar, ao lado e em silêncio, a partida de xadrez, achei que as pretas estavam irremediavelmente perdidas e que não restava muito a fazer. Por isso abandonei o xadrez e decidi dar uma volta pela cidade e aproveitar, antes do final do dia, para comprar alguma novidade e também para decidir sobre onde passar aquela fria e chuvosa noite de inverno.

Subindo, do outro lado da avenida, havia uma loja cujo nome, numa placa estreita e vertical, era muito interessante: Máquinas do Tempo; e, é claro, eu fui direto para lá! Era uma loja bem ampla, linda e muito bem sortida! Tinha praticamente todos os tipos, marcas e qualidades…! Eu, que sempre fui, diríamos, “doente!” por máquinas do tempo, não pude resistir e comprei logo um lindo modelo de bolso e também um de parede – tipo cuco, que me deixou muito feliz!

Encontrado um bom hotel, fiz questão de ficar num quarto de frente para a rua para poder desfrutar de uma visão privilegiada da avenida cujos lampiões, nos lindos postes de ferro fundido, àquela hora ainda não havia sido acesos. Da sacada do quarto, apreciando as lindas carruagens, carroças, cavalos e ainda muitas pessoas na avenida, de repente me lembrei do “tropeção!?” na porta do bar e, num susto, corri a mão ao bolso do paletó e… Ai…! O larápio (ou, o gaudério – como chamam isso hoje, por aqui) me levou o smartphone! Ainda muito indignado, mas aliviado por não ter perdido coisa de maior valor, pensei comigo mesmo:

— Gaudério idiota! Esse smartphone, além de ser uma velharia, ainda não pega sinal algum por aqui; aliás, nem teria como recarregá-lo! Esse rato antiquado ainda terá que aprender muito, antes de levar minha carteira, ou, algo que seja realmente útil, de meus bolsos!

De volta ao futuro…

10 De Volta ao Futuro

Zinho, cujo nome mesmo era Manoel, estava já quase concluindo o seu curso de jornalismo, trabalhava como redator no jornal O Metropolitano e era fascinado por dois assuntos em especial: Tempo, e, viagem através do tempo. Sempre que possível ele puxava esses assuntos com as pessoas à sua volta e, como era muito rápido na escrita, ele ia anotando tudo; tanto as informações interessantes, como também as anedotas, gracejos e até as chacotas e desdém de cada um dos seus interlocutores! Ele pretendia escrever um livro sobre o assunto algum dia, mas não um livro com informações forçadas, para serem engolidas simplesmente; ele queria levar em conta todos os seus possíveis leitores e seus mais diferentes pontos de vista.

Era domingo à tarde e ele estava assentado num banco da praçinha em frente à matriz enquanto esperava por Soraia, uma garota com quem marcara de ir ao cinema aquela tarde, quando chega Elizabete, uma professora de física com quem sempre trocava umas idéias e lhe pergunta:

— E aí, Zinho; se incomoda? (diz ela jogando o seu charme e fazendo menção de se sentar ao seu lado)

Zinho, que como de costume estava escrevendo alguma coisa num grosso e surrado caderno que sempre trazia consigo, levanta os olhos e assente que sim.

— Claro, Bete, tenha a bondade.

— Curioso… (diz ela olhando para frente, para não tirar a privacidade do rapaz em suas anotações) “Um escritor que escreve na praça!” (diz ela em tom de brincadeira) Isso até serviria de título a um livro…! A propósito, você se considera um escritor; certo?

— Bom… Isso depende muito do ponto de vista. (diz ele deixando de lado, por um instante, o que estava escrevendo) Em princípio, quem escreve é escritor – seja de romances, de contos ou de poesias, eu diria; muito embora, na prática, só é mesmo considerado escritor aquele que tem seus escritos publicados… e, lidos!

— Aha…! Muito bom! Gostei. E você, continua escrevendo sobre aquelas pitorescas “viagens pelo tempo”?

Bete, que curtia muito mais o rapaz do que a sua inteligência e os seus escritos, nunca perdia uma oportunidade para uma boa conversa ou discussão com ele sobre qualquer assunto.

— Bem, você sabe; como redator, no jornal, eu escrevo o que me mandam; mas, quando eu posso escrever o que me agrada, os meus assuntos prediletos são aqueles de sempre: O tempo, viagens e… contos de ficção, de um modo geral.

— Hum… Eu apreciaria muito se você me permitisse ler mais alguns dos contos que você tem escrito… Aposto que são todos muito interessantes! Agora, de onde você tira essas idéias tão mirabolantes para escrever sobre coisas que você nunca viu… e que não existem, na realidade?! Se não te for um incômodo, a tal pergunta, é claro!

— “Ora! Não é incômodo algum. (diz ele se ajeitando melhor no banco, de maneira a dar maior atenção à colega) Por exemplo; seja você uma cientista, filósofa, professora, ou o que for, você provavelmente já parou para pensar sobre o porquê do tempo, na sua natureza e sobre o seu implacável e ininterrupto avançar; não é assim? Na verdade, todos nós pensamos sobre isso; apenas que uns mais, outros menos; uns escrevem o que pensam, e outros não.

“Muito se tem escrito sobre o desejo de parar, retroceder, ou, de se adiantar no tempo. A “viagem através do tempo” tem sido uma universal e deliciosa fantasia da mente humana em sua busca pelo que já foi – no passado, pelo que está acontecendo – no presente, ou, pelo que ainda nos acontecerá – no futuro. Isso tem sido tema de muita reflexão e até de “muitos esforços!” ao longo de nossa existência.

“A volta ao passado, naturalmente, nos faz sonhar com as possibilidades de consertarmos o que foi mal feito, ou, de prevermos (lá no passado) o dia de hoje, de maneira a tirar um ótimo proveito da tal antevisão, da mesma forma que faríamos se pudéssemos sair do presente, dar uma passadela pelo futuro e depois retornar! Assim, diríamos que o assunto: “viagem através do tempo” sempre foi, é, e continuará sendo ainda um dos mais apetitosos assuntos à nossa vã imaginação; e, como todo mundo, eu também penso sobre isso e acabo imaginando certas situações… e, depois, é só parar e dedicar algum tempo escrevendo sobre essas fantásticas imaginações. A mim isso me parece bastante natural; a você não?”

— É… Eu acho que você tem razão. É um assunto de fato interessante e só o que muda é a quantidade de tempo que cada um de nós dedicamos a pensar sobre isso. (diz sorrindo) Outra coisa; é impressionante como tem surgido, ultimamente, (diz ela com ênfase) um bocado de romances e filmes de ficção do tipo que “transporta” o leitor ou o espectador para o passado, para o futuro ou simplesmente para um espaço/tempo curiosamente diferente da nossa realidade; não?

— Pois é; (emenda Zinho) mas, não obstante o latente e insistente desejo do ser humano de domar o tempo, ele está aí e continua marchando unidirecionalmente, em todo o universo, tal como o Criador, em sua sabedoria, o estabelecera.

— Pelo visto, você é um criacionista! (diz ela sorrindo) Eu também sou. Segundo a metafísica teoria da relatividade de velocidade/espaço/tempo, conforme proposta por Einstein, o tempo poderia andar mais rápido, ou mais lento ou até mesmo parar. O que você me diz sobre isso?

— Bom, pelo menos teoricamente, isso parece fazer sentido; mas, na prática, de que maneira o homem iria conseguir velocidades próximas, ou até mesmo superiores, à velocidade da luz?!

Shakespeare disse, certa vez: (diz ela) “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia!” De repente, o homem pode descobrir uma maneira de se transportar através de um facho luminoso e à velocidade da luz… Por que não!?

— “É… mas, aí teríamos que considerar uma desmaterialização, transporte da submatéria e uma subsequente transmaterialização… e eu não acredito nisso! Não obstante os formidáveis avanços tecnológicos da modernidade, o homem ainda não pode dizer que domina nem ao menos os rudimentos básicos dessa tal “ciência!”

“Para ser mais específico, o homem não domina nem mesmo os simples conceitos entre Passado, Presente e Futuro! Por exemplo; como podemos dizer que “existe” um tempo chamado “futuro”, se ele ainda não chegou? E quando chegar, quanto tempo durará como presente? O que é o “presente”, afinal? No exato momento em que paramos para definir o “agora” como sendo o nosso “presente”, esse “agora” já se foi e já entrou para a janela do passado, um espaço/tempo que foge totalmente ao nosso controle!

“A rigor, poderíamos dizer que o “futuro” não é nada mais do que uma simples expectativa do “presente” – em função de experiências no “passado”. O “presente”, por sua vez, seria apenas e tão somente uma transição “com duração infinitesimal!” entre o “passado” e o “futuro”. Na verdade, só o “passado” existe… em nossa memória e materializado em nossas realizações. E, curiosamente, a única coisa que podemos fazer, em se falando do nosso passado, é alterar coisas materiais que um dia foram trazidas à realidade! Porque, com relação às nossas ações imateriais, é como nos diz o velho adágio: “O que passou, passou!”

“O grande metafísico Einstein, que você muito bem conhece, disse uma coisa muito interessante: “A única razão para a existência do tempo, no universo em que vivemos, seria o cuidado do Criador para que não nos acontecesse tudo de uma só vez!” Ou seja; o tempo Presente tem duração infinitesimal para que possamos suportar a dor de nossas mediocridades enquanto o Passado é constantemente afastado de nós e varrido pela ininterrupta chegada do Futuro!”

— Hum… Pelo que vejo, (diz Elizabete com ar crítico) você gosta de escrever sobre uma tal “viagem através do tempo”, viagem esta na qual você absolutamente não acredita… Ou será que estou enganada?

— Não; você não está enganada. Eu de fato aprecio muito esse tema, mas apenas como ficção; não como uma possibilidade a ser explorada.

Nisso chega Soraia. Zinho se despede de Bete e vai, com Soraia, assistir ao antigo, mas ainda celebrado filme: De Volta ao Futuro.

O Misterioso Sumiço dos Industrializados!

8 O Misterioso Sumiço dos Industrializados

Chico vivia com o pai – o seu Luiz, a madrasta – Da. Mara, e com a meia-irmã – Marrí (na verdade, Maria Rita) que amava infernizar-lhe a vida! em uma área rural que distava uns cinqüenta quilômetros da cidade mais próxima. Era uma fazenda comum; com várias casas de colonos, além da sede e de outras edificações de apoio. Chico havia saído cedo, pra fazer umas compras na cidade e tivera um dia extremamente difícil! Daqueles em que tudo parece sair ao contrário do que deveria! Chega em casa bem mais tarde do que o habitual e todos já estavam deitados. Cansado do sol escaldante e do constante sacolejo da viagem, ele mal toma uma ducha, come do que havia sobrado da gostosa feijoada do almoço e vai pra cama, já quase dormindo.

Era lua cheia e a noite estava linda! Podia-se caminhar em plena noite sem necessidade de qualquer outra luz, que não a do luar. À meia-noite em ponto ele sente a cama sumir de debaixo de si e Chico desaba ao chão! De repente ele se vê deitado no solo úmido e frio, atordoado e assustado com um forte tremor de terra…! Uma coisa doida, que ele nunca tinha visto antes! Após procurar, sem sucesso, o chinelo à beira da cama, ele resolve ir descalço mesmo à procura do pai e ver como estavam todos e, no atropelo, nem se dá conta de verificar como ele próprio estava.

— Pai, vocês estão bem? (indaga ele cambaleante e com voz trôpega)

— Sim, eu acho que sim… O que houve? O que foi isso?

Levou quase meia hora para que todos percebessem que estavam completamente nus, que não havia mais a casa em que moravam e nem qualquer objeto, móvel ou utensílio doméstico que tivesse sido industrializado! Não tardou muito e todos os colonos foram se reunindo nas proximidades da sede da fazenda… envergonhados e escondendo-se como podiam. Felizmente o celeiro (onde guardavam o milho em espigas) e também a garagem (onde ficavam o trator e alguns implementos agrícolas) haviam sido construídos com madeira de pau à pique e cobertas com sapé; foi o que sobrou; assim, as mulheres e as crianças foram se abrigando na garagem – que acabara vazia, enquanto que os homens foram para o celeiro, para discutirem sobre o forte e incomum tremor de terra, sobre o que teria acontecido a tudo o que fora produzido pela indústria moderna, e, o mais importante, decidirem sobre “O que fazer agora…?”

Seu Luiz, o dono da fazenda, era um agrônomo muito culto, o mais velho do grupo e, naturalmente, a maior autoridade ali presente; mas, tão aturdido estava com os estranhos e misteriosos acontecimentos, que só foi se manifestar após todos já terem dados seus mais insólitos palpites… sem, contudo, chegarem a conclusão alguma!

Faltava pouco para amanhecer o dia e a linda luz matinal parecia querer comunicar o começo de uma era totalmente nova para o que restou da humanidade no planeta Terra. Resoluto, seu Luiz vai até a garagem, pega sua esposa pelo braço – com ela protestando muito e tentando se cobrir com as mãos e com os braços…

— Vem, Mara; é importante; confia em mim. (diz ele com firmeza e determinação)

Seu Luiz convoca, já se dirigindo para lá, uma reunião geral a se realizar no terreiro da sede da fazenda. A princípio as mulheres não queriam sair do seu “esconderijo”; mas, quando viram dona Mara “valente!” ao lado do seu Luiz e em frente a todos os homens, uma a uma foi saindo da garagem, com seus filhos, e se colocando ao lado de seus respectivos maridos. Só quando seu Luiz consegue cem por cento da audiência é que ele começa a falar.

— “Nada! nesse universo em que vivemos, acontece sem uma “causa”, ou, sem uma “razão” bem específica. (diz seu Luiz em tom pausado, enfático e com ares de quem sabe o que está falando)

“Sem dúvida que o mundo, tal como o conhecêramos até ontem à noite, não poderia ir mesmo muito mais longe do que foi, face a tantas intrigas, inimizades, guerras, abusos de todo tipo e desrespeitos contra tudo e contra todos! Somos pequenos demais para querermos explicar tudo, ou mesmo qualquer coisa, à nossa volta; no entanto, o que podemos dizer, com certeza, é que somos hoje um pequeno grupo de privilegiados. Sim, senhores! Tivemos a extrema sorte de não estarmos, à hora do acontecimento, num avião ou num transatlântico em alto mar… Imaginem vocês; o que aconteceria se vocês estivessem num prédio de apartamentos e de repente, simplesmente desaparecesse todo ferro, pedra britada e cimento…? Ou mesmo, imaginem vocês num carro a cem quilômetros por hora… Poderia ter sido muito pior; sem dúvida!

“O que aconteceu aqui, não pode ter acontecido só aqui; foi global. E, como já pudemos constatar, não nos restou absolutamente nada de qualquer produto industrializado; nem rastro, e nem cheiro! Seria ótimo se pudéssemos contar agora com alguma faca, facão, foice, machado e etc., mas não podemos. Tudo agora terá que ser improvisado e/ou reinventado. Esse é um momento único em nossa história. Teremos que nos reorganizar a partir do zero; e, as palavras de ordem para o momento, são: Respeito, disciplina, criatividade e muito trabalho! Não temos nada, precisamos de tudo, e não temos qualquer ferramenta pra nos ajudar!

“Como vocês bem podem imaginar, se não existe mais papel, nem carimbo e nem assinatura em documentos, então não existe mais nem propriedades e nem proprietários; nem dinheiro, nem jóias, nem graus de importância, nem títulos de honra e nem autoridades instituídas. Estamos todos exatamente como nascemos. Todos ao natural, iguais, e também no mesmo nível político-sócio-econômico. A nossa única esperança agora é nos unirmos como um clã, nos estruturarmos numa boa política de convivência, com uma boa orientação de procedimentos e defendermos, nós mesmos, a nossa integridade e sobrevivência…”

Seu Luiz falou até o nascer do sol e ressaltou especialmente a necessidade de muito respeito – entre homens e mulheres, disciplina, e também sobre o trabalho comunitário e suas principais características e responsabilidades. Sem dúvida que mandou muito bem em seu discurso inaugural… Difícil mesmo seria, agora, se acostumar com o “novo”; que, a rigor, era praticamente tudo…

— Chico! Ô, Chico! Que coisa, homem… levanta! morreu, foi? (diz Marrí, dando-lhe com muito gosto uns fortes safanões)

— Hã… É… O que houve…? (diz Chico tentando se recuperar do susto. Olha pra ela, abobalhado, quase não podendo acreditar no que vê…)

— Uai, Chico… Que cara é essa?! Por que me olhando desse jeito? Ó, melhor levantar logo! Toma o teu café e vai que o pai danado de bravo c’ocê; te esperando lá na garagem!. (diz Marrí feliz e satisfeita enquanto se afasta em seu costumeiro e sensual rebolado)